A Alcoviteira

Num espaço incerto, comprimido e saturado da luminosidade
quente e penumbrosa de uma taberna, quatro personagens
vistas em meias-figuras postam-se em frisa atrás de uma
balaustrada (?) recoberta por uma suntuosa tapeçaria Ushak
(Turquia), com medalhões em padrões florais.

Alternam-se nela, vermelhos, amarelos e o que devia ser um
azul muito vívido, hoje reduzido a diversas tonalidades de
um cinza prateado, em decorrência do emprego pelo artista de
um pigmento ferroso, provavelmente vivianite, que escurece
sob a ação continuada da luz.

As formas, brilhos e cores adquirem nuances conforme a
ondulação das pregas profundas da tapeçaria, em um
verdadeiro tour de force do pincel. Um casaco de pele
com botões ou pingentes de ouro pende também sobre o balcão
à esquerda, enquanto uma belíssima bilha de porcelana na
extremidade direita da mesa compõe, com a transparência do
copo ao lado, um diálogo, dir-se-ia metafísico, entre as
formas diversas de ser dos objetos.

Na metade superior da composição, sentada atrás de uma mesa,
uma suposta alcoviteira é a única figura inteiramente
banhada em luz. Ela segura o mencionado copo de vinho branco
que repousa sobre a mesa enquanto recebe uma moeda de ouro
de um soldado (assim identificado pela cor de sua jaqueta)
com cabelos longos e um vistoso chapéu, que lhe põe
delicadamente a mão sobre o peito.

Como o título da obra indica, a figura feminina é definida
como uma alcoviteira, mas o titulo é moderno e o erotismo
intenso e envolvente que transpira de sua relação com o
soldado permite cogitar se não se trate antes de uma
prostituta. Sua beleza juvenil, a sutileza de seu sorriso e
a calma que emana de seu semblante parecem distanciá-la da
figura lasciva da entremetteuse, em geral mais velha
e caracterizada de modo mais negativo.

O soldado é observado por uma figura algo mefistofélica às
suas costas, enquanto um jovem elegantemente vestido, com um
copo de vinho tinto e um alaúde, rompe a unidade ternária da
composição. Ele olha para o espectador, divertido, brindando
à cena, à maneira dos quadros do gênero “Merry Company”. Sua
posição é, decerto, menos a de participante e mais a de
narrador ou comentador benevolente da relação amorosa.

A “Alcoviteira” (De koppelaarster) é um dos primeiros
quadros datados por Jan Vermeer (1632-1675). O tema, um
unicum no pintor, é corrente na pintura holandesa
desde finais do século XVI e Vermeer tinha em tese mais de
um modelo em que se inspirar. Mas é praticamente certo que
sua referência aqui é o exemplo de Dirk van Baburen em sua
obra homônima, hoje no Museum of Fine Arts de Boston (1622).

Veja: http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=2020

De fato, Vermeer conhecia bem esse quadro, pertencente então
a  Maria Thins, sua futura sogra, pois o reproduz em duas de
suas obras sucessivas, o “Concerto” (1660-1665), hoje no
Isabella Stewart Gardner Museum de Boston, e “Uma jovem
tocando um virginal” da National Gallery de Londres (1673-
1675).

Não parece totalmente plausível a hipótese de Arthur K.
Wheelock (1988), segundo a qual a presente composição admite
igualmente um sentido moral, assimilável à Parábola do Filho
Pródigo (Lucas, 15, 11-32), tema que gozou de grande
prestígio na pintura do século, sobretudo na Europa do
norte. O estudioso sugere que a aparência auto-consciente e
o olhar direto da figura da esquerda:

bear characteristics of a self-portrait. Even his
costume, which has been identified as Burgundian and not
Dutch seventeenth-century, reinforces the hypothesis that
Vermeer intended his painting to portray a story from the
past rather than a contemporary scene. The painting thus
represents an important moment in the transformation of
Vermeer´s early interest in mythological and Biblical scenes
to ones with a genre character.

“trai características de um autorretrato. Mesmo seu costume,
identificado como da Borgonha e não holandês do século XVII,
reforça a hipótese de que Vermeer pretendia representar uma
história do passado, mais que uma cena contemporânea. A
pintura, assim, mostra um momento importante na
transformação do interesse inicial de Vermeer por cenas
mitológicas e bíblicas em cenas de gênero”.

Luiz Marques
09/12/2011

Bibliografia:
1988 – A.K. Wheelock, Jan Vermeer, Londres: Thames and
Hudson, p. 54
1993 – E. Snow, “Vermeer’s Procuress”, The Threepenny
Review, 55, pp. 30-31.

Artista

VERMEER, Jan

Data

1656

Local

Dresden, Gemäldegalerie

Medidas

143 x 130 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Vida Social e Gênero

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

1342 - A Prostituição; 1394 - Prostitutas e Prostíbulos; 1396
- A Sedução; 1162 - A Música; 606D4 - O Filho Pródigo
partida e vida dissoluta

Autor

Luiz Marques

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