A carta

Numa página de um dos cadernos de desenho (publicado pela
Editora da Unicamp) de Eliseu Visconti (1866-1944),
apresentando dois perfis de uma mulher que leva um lenço aos
olhos, aparece a seguinte inscrição a tinta, obviamente
efetuada em data posterior à dos esboços:

“1ª esquisse do quadro ‘Más noticias’ que está na Pinacoteca
de S. Paulo”.

Segundo os arquivos da Pinacoteca, a pintura foi adquirida
pelo Governo do Estado de São Paulo, em 6 de novembro de
1946, mas pode ter sido antes, pois o registro feito sobre o
esboço desenhado parece ter a mesma caligrafia das outras
anotações no mesmo caderno, feitas a grafite pelo próprio
Visconti.

Além desses esboços desenhados, sabe-se ainda de um estudo
de busto para a pintura A carta, reproduzido em preto e
branco no catálogo da exposição Retrospectiva de Eliseu
Visconti, em novembro de 1949, no Museu Nacional de Belas
Artes, registrado com o título Moça chorando, um óleo de 35
x 47 cm.

A pintura da Pinacoteca foi criada em Paris, onde Visconti
se encontrava desde 1904, e durante o período em que o
artista trabalhava nas decorações do Teatro Municipal do Rio
de Janeiro, que estava em construção. Exposta no Salon de la
Société Nationale des Beaux-arts, de Paris, em 1907, foi
apresentada no Brasil, na Seção de Belas Artes do Palácio
dos Estados, na Exposição Nacional de 1908, como se pode ver
numa foto do recinto, de autoria de Augusto Malta (1864-
1957), arquivo de George Ermakoff.

Essa pintura foi, provavelmente, exibida também numa
individual de Visconti, no início de 1910, na Casa Vieitas,
Rio de Janeiro, como Lendo a carta, e participou, ainda, da
1ª Exposição Brasileira de Belas Artes, no Liceu de Artes e
Ofícios de São Paulo, inaugurada em 24 de dezembro de 1911.

Carolina Duprat observa sobre a pintura: “A textura da pele,
dos cabelos, do tecido e da estola de pele é perfeitamente
diferenciada, com poucas cores e uma gama reduzida de
tonalidades, pelo tratamento das pinceladas e do contraste
de luz e sombra. […] Em A Carta, pintada no mesmo ano de
Maternidade, Visconti optou por uma paleta monocromática, e
curiosamente se observa uma fusão da figura com o fundo,
como ocorre em suas pinturas com intensa variação
cromática”.

Visconti, que já foi chamado “o pintor da alegria”, muito
excepcionalmente registrava em suas obras qualquer tipo de
dor, porém, o tema da mulher que recolhe as lágrimas em seu
lenço, aparece ainda em Vitória de Samotrácia, de 1919, do
acervo do Museu Nacional de Belas Artes.

Mirian N. Seraphim
12/01/2012

Bibliografia:
1910 – Gazeta Artistica (Atravez das artes). São Paulo, ano
I, nº 9, abr. 1910, p. 16.
1911 – Primeira Exposição Brasileira de Bellas Artes. O
Estado de S. Paulo. São Paulo, 25 dez.
1949 – Exposição Retrospectiva de Elyseu D’Angelo Visconti.
Catálogo de exposição. Rio de Janeiro. Museu Nacional de
Belas Artes e Ministério de Educação e Saúde.
1969 – R. Pontual, Dicionário das Artes Plásticas no Brasil.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1986. J. da C. Lima (apres.), Dezenovevinte: uma virada no
século. Catálogo de exposição. São Paulo: SEC/Depto. de
Museus e Arquivos, Pinacoteca do Estado.
2008 – L. Eluf (org.), Eliseu Visconti. Campinas: Unicamp/
Imprensa Oficial (Coleção Cadernos de Desenho), p. 81.
2009 – C. Duprat, Pinacoteca do Estado de SP. Rio de
Janeiro: Mediafashion (Coleção Folha Grandes Museus do
Mundo).
2010 – M. N. Seraphim, A catalogação das pinturas a óleo de
Eliseu d’Angelo Visconti: o estado da questão. Tese de
Doutorado. Campinas: IFCH Unicamp.

Artista

VISCONTI, Eliseu d´Angelo

Data

1906

Local

São Paulo, Pinacoteca do Estado

Medidas

80 x 65 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Vida Social e Gênero

Período

O SÉCULO XX NA AMÉRICA HISPÂNICA E NO BRASIL

Index Iconografico

1307 - A Carta e a correspondência

Autor

Luiz Marques

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