A entrada de Cristo em Bruxelas

“Entre os temas biblicos, a entrada de Jesús em Jerusalém bem-vido entre gritos de “”Bendito aquele que vem no nome do Senhor, é um motivo reiterado. Inspirado nesta cena e no lugar de representar a entrada de Jesus em Jerusalém sentado sobre um burro James Ensor, pintor Belga, tem representado o profeta entrando na capital de seu país sendo recebido por uma corte mais do que militar e solene, carnavalesca. James Ensor predecessor do surrelismo e do expressionismo, utiliza nesta obra as máscaras que são um elemento reiterado de sua produção pictórica, da que esta é sua maior obra.

No borde inferior direito da obra um cartaz deixa ler os dizeres “”Viva Jesus, rei de Bruxelas””. Os cidadãos de Bruxelas portam estandartes enquanto a orquestra militar precede o cortejo, e um representante das autoridades aguarda a chegada da multidão com uma faixa branca cruzada sobre o peito em pé na tribuna.
A liberdade de trasladar a história bíblica a outros cenários, é um fato comum na literatura do século XIX como por exemplo “”Jesus Cristo em Flandes”” de Honoré de Balzac (1799/1850) que o colocara na Idade Media e Fiódor M. Dostoievski (1821/1881) que o imaginara em Sevilha durante a inquisição, no seu romance “”Os Irmãos Karamazov”” publicado no mesmo ano em que fora realizada a obra de Ensor.
Um cartaz acima da multidão deixa ler “”Vive la Sociale”” (viva a revolução social), contrario ao que poderíamos presumir, o artista não possuía nenhuma ligação e ou interesse pela política, embora os especialistas tenham interpretado esta frase como uma alusão a realidade em que se encontrava inserido o artista e aos diversos enfrentamentos ocorridos por estes anos em Bélgica em reivindicação dos direitos cidadãos.
Esta obra monumental foi pintada por Ensor na sótão da casa de sua mãe onde morava ainda, a obra cujo tamanho sobre passava a altura do teto da habitação, teve que ser pintada por partes enquanto o resto da tela permanecia enrolada. A mãe do pintor tinha um pequena loja de lembrancinhas de motivos marinhos, já que para neste tempo a cidade de Ostende tinha se convertido num importante balneário e estação de trem; conjuntamente com esses produtos eram vendidas também fantasias para o carnaval da cidade, festas famosas pela sua beleza e seu caráter popular, ocasiões em que o próprio pintor e sua família costumavam se fantasiar. Estas experiencias tem servido para os especialistas para justificar a grande familiaridade do pintor com o colorido e sua facilidade para vestir os personagens da peça, assim como o uso das máscaras nas suas obras, embora elas também possam ser interpretadas como um tipo de vingança do pintor contra os habitantes de uma cidade que nunca aprecio sua arte, ao respeito Ensor escrevera “”las máscaras también me gustan porque hieren al público que tan mal me acogió””.
A figura de Cristo é também um elemento recurrente na obra de Ensor e os especialistas afirmam que a cabeça destas figuras guarda sempre uma similitude com a própria cabeça do pintor que chegara incluso a escrever numa de suas obras em lugar de “”INRI””, seu próprio nome sobre a cruz. Em “”A entrada de Cristo em Bruxelas”” , Cristo não ocupa como caberia esperar como protagonista da obra, o centro da composição, mas se encontra isolado, praticamente perdido no colorido a seu redor. Uma identificação de Ensor com a personagem bíblica que o coloca como incompreendido entre os seus e finalmente crucificado pela crítica.

Mónica Villares Ferrer, Mestre em História da Arte.
16/06/2010.

Bibliografia
Rose-Marie e Rainer, Hagen: Los secretos de las obras de arte: Del tapiz de Bayeux a los murales de Diego Rivera. Tomo II. Singapura: TASCHEN, 2005. P. 686/691.

Artista

ENSOR, James

Data

1888

Local

Chicago, Art Institute

Medidas

260 x 431 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

606E2 104b - Entrada de Jesus em Jerusalém; 1326 - Festas e Cortejos Urbanos; 1338 - A Multidão;

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *