A família

“É a primeira composição de Eliseu Visconti (1866-1944),
dentre as conhecidas, retratando em conjunto Louise Palombe,
sua esposa francesa, ao lado de seus três filhos. Esta será
seguida de várias outras do grupo familiar.

Trata-se de uma cena de gênero representativa de elementos
característicos da pintura viscontiana: realizada ao ar
livre, em jardim florido, iluminado e multicolorido; pessoas
em atividades que giram em torno da figura feminina, em
perfeita harmonia; o branco das roupas refletindo as cores
circundantes.

Yvonne, a primogênita nascida na França em 1901, parece
concentrada num crochê, sua mãe a demonstrar a pintura de um
livro de colorir para o pequeno Afonso, enquanto Tobias, o
único nascido no Brasil, em 1910, fita o observador com seu
bambolê no ombro. Uma encantadora expressão da beleza,
alegria e ternura, marcas constantes em toda a obra de
Visconti, a envolver a família que foi seu ponto de
equilíbrio e lhe proporcionou serenidade e inspiração para
produzir sua arte até o final de seus dias.

A pintura foi exposta no Salon de la Société Nationale des
Beaux-Arts, em 1920, e no mesmo ano, no Rio de Janeiro, foi
apresentada na 27ª Exposição Geral de Belas Artes; quando
Visconti acabara de voltar definitivamente ao Brasil, com
sua família, depois de ter se transferido para a França, em
1913, para lá realizar as decorações do teto do foyer do
Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Segundo notas da imprensa, as três pinturas de Visconti
expostas no Salon de 1920 não chegaram a tempo para o
vernissage no Rio, mas já tinham seus lugares marcados na
EGBA. Três dias depois, é anunciada a chegada das obras, e
na semana seguinte elas são alvo da crítica: “”… destacamos
em primeiro logar A familia; a sua feitura,
caracteristicamente pessoal, rodeia o grupo affectivo de um
ambiente carinhoso que impressiona suave e deleitosamente.””
(R.P.) No catálogo da Exposição Retrospectiva anexa à
Exposição Comemorativa do Centenário da Independência, em
1922, essa pintura foi registrada com a data de 1916.

No entanto, é possível verificar que a data inscrita na
pintura foi alterada. Sob certo ângulo se vê 1920; de outro,
claramente, 1916. Pela aparência de Afonso, nascido em
janeiro 1915, a pintura não deve ter sido criada em 1916,
nem tão pouco em 1920. Portanto, estas datas teriam sido
inscritas num momento posterior ao de criação da pintura,
provavelmente por ocasião das suas primeiras exposições,
para atender a algum critério estabelecido. Assim também, a
inscrição “”Rio””, que antecede as datas. Comparando-se esta
pintura com outras representações do grupo familiar, chega-
se à conclusão que teria sido pintada em cerca de 1918.

Uma fotografia antiga dessa pintura, dos arquivos da
família, traz no verso a inscrição: “”1, Square Delambre””,
que foi o último endereço de Visconti em Paris, entre 1916 e
1920. Uma foto do pintor em seu atelier da Ladeira dos
Tabajaras, ao lado desta pintura, foi publicada em O Jornal,
em 1926, com a legenda: “”Recanto do atelier vendo-se
Visconti junto a um dos seus quadros expostos no ‘Salon’ de
Paris, e cuja venda recusou””.

Reproduzida em preto e branco na biografia de Barata, a
pintura traz o título No jardim de Saint Hubert (A família),
em cuja legenda consta: “”Paris, 1917 (Da coleção José Maria
Withaker, S. Paulo)””. Apesar dessa biografia apresentar
vários equívocos de datas, não deixa de ser um indicativo de
sua criação.

Através dos rascunhos de uma carta de Louise para Benjamim
de Mendonça (o proprietário à época), datados de 10 de
fevereiro de 1954, dos arquivos da família, sabe-se que esta
pintura deveria ter participado da Sala Especial Eliseu
Visconti na 2ª Bienal de São Paulo, o que não aconteceu
porque, durante o transporte, ela foi avariada na parte
superior da tela, e seria restaurada pelos responsáveis.

Mirian N. Seraphim
13/01/2012

Bibliografia:
1920 – O “”vernissage”” do salão deste anno. Hoje ás 15:30
horas será a inauguração official. O Jornal (Bellas-Artes).
Rio de Janeiro 12 ago, p. 3.
1920 – Impressões sobre o salão deste anno. Ainda a secção
de pintura. O Jornal (Bellas-Artes). Rio de Janeiro, 15 ago,
p. 3.
1920 – R.P. Salão de 1920. Jornal do Brasil (Bellas Artes).
Rio de Janeiro, 21 ago., p. 8.
1920 – A. Mattos, O Salão de Bellas Artes. Illustração
Brasileira, Anno 8, nº 1, set.
1922. Salão Nacional de Belas Artes (Arte Retrospectiva).
Catálogo de exposição. Rio de Janeiro.
1926 – A. Costa, Na intimidade dos nossos artistas. O
Jornal, Rio de Janeiro, 11 jul.
1944 – F. Barata, Eliseu Visconti e seu Tempo. Rio de
Janeiro: Zélio Valverde, p. 56.
2008 – M. N. Seraphim, Eros adolescente: No verão de Eliseu
Visconti. Campinas: Autores Associados (Coleção Florada das
Artes), pp. 105, 295.
2010 – M. N. Seraphim, A catalogação das pinturas a óleo de
Eliseu d’Angelo Visconti: o estado da questão. Tese de
Doutorado. Campinas: IFCH Unicamp.”

Artista

VISCONTI, Eliseu d´Angelo

Data

1916/ 1920

Local

São Paulo, Coleção particular

Medidas

126,5 x 95 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

O SÉCULO XX NA AMÉRICA HISPÂNICA E NO BRASIL

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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