A jovem mártir

A Jovem mártir é hoje, provavelmente, o quadro mais célebre de Paul Delaroche (1797-1856). Pintor francês dos mais laureados em sua época, sua fama adveio particularmente de quadros históricos como A Morte de Elizabeth I (1827), Execução de Lady Jane Grey (1833) e Napoleão cruzando os Alpes (1848). Mas a Jovem mártir foi uma pintura tão bem sucedida que chegou a se multiplicar em gravuras e fotografias entre as décadas de 1860 e 1880, mantendo sempre a composição irretocável.

Delaroche deixou em carta uma descrição da obra:

“Uma mártir no tempo de Diocleciano. Uma jovem romana que não quis oferecer sacrifícios a falsos deuses é condenada à morte e lançada ao Tibre, as mãos atadas; o sol se põe por trás das margens nuas e sombrias do rio; dois cristãos que caminham silenciosamente percebem o cadáver da jovem mártir passando diante deles, levada pelas águas”.

Delaroche acrescentou: “A parte superior da figura, bem como a água, é iluminada por uma auréola divina que flutua acima dela”.

Tal sublimação mística equivale, de algum modo, à que se vê em Atala* (1803), de Girodet, na qual o corpo da donzela é banhado por uma luz que parece brotar do crucifixo no alto do quadro.

A Jovem mártir evoca também Ofélia, a personagem que morre afogada em Hamlet, de Shakespeare. Théophile Gautier (1811-1872) logo identificou no quadro de Delaroche uma “Ofélia cristã”. Mais recentemente, Bram Dijkstra observou que a “imagem de Ofélia morta e flutuante, do cadáver feminino sacrificado, foi frequentemente adaptada a outras narrativas voltadas ao gosto pelo martírio da mulher. Na Jovem mártir, de Delaroche, ela se torna uma mulher santificada, flutuando elegantemente […] as mãos atadas em evidência, enfatizando a impotência absoluta”.

Pela ampla difusão e complexidade das narrativas que envolvem Ofélia e Atala, ambas as damas acabaram se multiplicando em inúmeras versões, feitas por diferentes artistas, sobretudo no final do século XIX. A Jovem mártir, por outro lado, é conhecida apenas na versão de Delaroche, da qual há uma réplica menor, no Hermitage. Talvez a sua singularidade e perfeição se aliem ao anonimato da personagem, tornando-a tão popular quanto comovente ao grande público.

Alexander Gaiotto Miyoshi
19/03/2011

Bibliografia:
1986 – B. Djikstra, Idols of Perversity, Fantasies of Feminine Evil in Fin-de-Siècle. Nova Iorque: Oxford University, p. 49.
1999 – C. Allemand-Cosneau, I. Julia (org.). Paul Delaroche: Un peintre dans l´Histoire. Paris: Éditions de la

Artista

DELAROCHE, Paul

Data

1855

Local

Paris, musée du Louvre

Medidas

170 x 148 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

800 - Mártires salvo os Santos

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *