A Madalena no sepulcro

Registro inventarial: inv. n. 1031

Uma primeira menção a esta obra ocorre em 1620 nos Elogi
historici di bresciani illustri
de Ottavio Rossi,
arqueólogo e versejador morto na famosa peste de 1630:

una bellissima Maddalena coperta da un pan bianco, ch´è
in casa del Dottor Lorenzo Averoldo
. Lorenzo é bisneto
de Giovan Paolo Averoldi, comitente de um “S. Jerônimo” de
Savoldo em 1527 e talvez também deste quadro.

A especificação de um “pano branco”, ou melhor, prateado,
permite identificar esta versão de Londres, dentre as quatro
existentes, dado que nas demais – conservadas em Berlim,
Florença e Zurique – o manto é dourado.

Uma segunda menção antiga, parcialmente derivada desta,
encontra-se em Ridolfi (1648), que já precisa se tratar de
uma Madalena no sepulcro:

in casa Averolda… una figura della Maddalena involta in
drappo, col vase dell´alabastro, incaminata al Sepolcro
celebre pittura dalla quale si sono tratte molte copie

“na casa dos Averoldi… uma figura da Madalena envolta em
um manto, com o vaso de alabastro, que se encaminhara ao
Sepulcro, célebre pintura da qual se fizeram muitas cópias”

A presente versão de Londres é a única em que se vê ao fundo
uma paisagem da laguna veneziana, onde Girolamo Savoldo
(1480-1548) vive desde 1521, paisagem atmosférica colhida na
aurora, que recorda uma passagem do Dialogo della
pittura
de Paolo Pino, (1548), no qual Fabio, defensor,
como bom florentino, de uma pintura exclusivamente de
figure, presta homenagem à sensibilidade paisagística
do pintor, típica para ele dos artistas setentrionais:

ma noi italiani siamo nel giardin del mondo, cosa più
dileteuole da uedere, che da fignere, pur io ho ueduto di
mano di Titiano paesi miraculosi, et molto più gratiosi, che
li Fiandresi non sono. Messer Girolamo Bresciano, in questa
parte era dottissimo, della cui mano uidi già alcune aurore
con riflessi del sole, certe oscurità con mille discrittioni
ingegnosissime, et rare, le qual cose hanno più vera imagine
del proprio, che li Fiamenghi

“mas nós italianos estamos no jardim do mundo, o que é mais
deleitável de se ver que de pintar, e contudo vi da mão de
Tiziano paisagens miraculosas e muito mais graciosas que as
dos pintores da Flandres. Messer Girolamo Bresciano nesta
arte era doutíssimo, e de sua mão vi já algumas auroras com
reflexos do sol, certas penumbras com mil nuances
engenhosíssimas, e raras, as quais são mais verdadeiras que
as dos flamengos”.

Como as demais versões, esta de Londres recebeu datações que
oscilam entre o final dos anos 1520 e 1540. Um dado externo,
contudo, pode reforçar a ideia de que esta versão nasça
ainda nos anos 1520: a possibilidade de que tenha sido
encomendada por Giovan Paolo Averoldi juntamente com o “S.
Jerônimo”, cujo pagamento é documentado em 1527.

Luiz Marques
06/12/2011

Bibliografia:
1620 – O. Rossi, Elogi historici di bresciani
illustri
, Brescia. Bolonha, 1981, p. 502.
1648 – C. Ridolfi, Le Meraviglie dell´Arte ovvero Le Vite
degli Illustri Pittori Veneti e dello Stato [Veneza]. Ed.
D.T. von Hadeln, Berlim, 1914, p. 271, nota 12.
1963 – A. Boschetto, Giovan Girolamo Savoldo. Milão:
Bramante Ed., Tavola 24.
1987 – C. Gould, National Gallery Catalogues. The Sixteenth-
Century Italian Schools. Londres, pp. 236-237
1990 – R. Stradiotti, in B. Passamani, Giovanni Gerolamo
Savoldo tra Foppa Giorgione e Caravaggio. Catálogo da
exposição, Brescia. Milão: Electa, p. 150-152.

Artista

SAVOLDO, Giovanni Girolamo

Data

1528c. / 1540

Local

Londres, National Gallery

Medidas

86,4 x 79 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

806 - Imagens e Ciclos Biográficos de santos; 806Mada -
Maria Madalena; 618.4 - Noli me tangere; 1367 - A Cortesã

Autor

Luiz Marques

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