A morte de Sofonisba

A história de Sofonisba é narrada por Tito-Lívio, De urbe condita, XXX, xiv-xv. Para um resumo circunstanciado desta passagem do historiador romano, leia-se o texto que acompanha a Sofonisba de Andra Mantegna na National Gallery de Londres.

Representações do suicídio de Sofonisba tornam-se mais recorrentes no século XVII, mas seu surgimento entre finais do século XV e inícios do século XVI são parte do tradicional topos da heroína que enfrenta a morte com destemor, ao qual se acrescenta uma nova sensibilidade em relação à tragédia como gênero literário, então emergente.

Graças a tal sensibilidade, a tragédia moderna na Itália, França e Inglaterra, de Giangiorgio Trissino (cuja Sofonisba, de 1513, não foi encenada na França até 1559 e na Itália até 1562) a Shakespeare (1564-1616), assenhora-se intensamente sobretudo da história romana, criando toda uma dramaturgia baseada nas personalidades de Túlia, Sofonisba, Pompeu Magno, Júlio César, Brutus, Catão de Útica, Marco Antônio, Cleópatra, etc.

Em sua prática dramatúrgica, Trissino reivindica a eficiência trágica da encenação do suicídio quando, em 1513, ao delongar-se na agonia de sua Sofonisba, afirmava en passant a tese da maior eficácia trágica da visão em relação à audição:

Sofonisba
“Ó minha mãe, quão distante estais.
Ao menos pudesse uma só vez
Ver-vos e abraçar em minha morte.

Ermínia
Feliz ela, feliz, que não vê
este fato cruel: que menos grave
parece-nos o mal que só se ouve”.

Vencidas aos poucos as reservas religiosas em relação à encenação do suicídio, esta prescrição da visualização do ato extremo na (re)constituição da tragédia, com suas diversas teorizações baseadas na Poética de Aristóteles – de Giraldi Cinzio a Corneille -, encontrarão em Sofonisba, personagem essencialmente trágica, um tema de predileção da pintura europeia do século XVII.

As obras de Giampietrino* (Isola Bella, Coleção Borromeo) esta de Caroto prenunciam esta voga. Se a de Giampietrino pode ser datada de 1520c., a de Caroto que a replica vestida, é mais tardia e pode ter sido pintada após 1530, quando o artista trabalha estavelmente para uma clientela vêneta.

Luiz Marques
11/05/2010

Artista

CAROTO, Gian Francesco

Data

1530/ 1540c.

Local

Verona, Museo Civico di Castelvecchio

Medidas

desconhecidas

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

320 - Os Cipiões; 320.2 - A morte de Sofonisba em 203 a.C.

Autor

Luiz Marques

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