A Noite

“Em uma paisagem rochosa, sob uma luz irreal, Ferdinand
Hodler (1853-1918) dispõe em linhas paralelas (teorizadas
sucessivamente em sua doutrina do paralelismo) sete
personagens nuas e adormecidas, quatro mulheres e três
homens. Os modelos das duas figuras femininas do primeiro
plano são Augustine Dupin, sua companheira e mãe de seu
filho, e Bertha Stuckie (de costas), com quem esteve
brevemente casado em 1889. Enquanto pintava “”A Noite””,
Hodler encontrava-se justamente entre as duas mulheres, pois
em agosto desse ano separa-se de Bertha para retornar à
Augustine. A figura à direita, adormecida e recostada em um
rochedo, é um autorretrato.

Ao centro, o artista retrata-se novamente, mas agora em vias
de ser possuído por um aterrorizante vulto da morte, contra
o qual se debate em pânico. Totalmente envolto em negro,
o espectro oprime seu ventre, em uma posição que não é sem
lembrar o Incubus sobre a jovem adolescente
adormecida ou desfalecida, de Füssli, nas múltiplas versões
de Nightmare*, sua mais famosa composição cujo
protótipo remonta a 1781.

No verso do quadro, Hodler escreve: “”Muitos são os
que adormecem à noite, mas não despertam ao amanhecer””,
lúgubre adágio que bem resume a obsessão pela morte que
acompanha sua vida até 1889, marcada pelo extermínio de seus
familiares.

De fato, aos sete anos, Ferdinand, primogênito de uma
família muito pobre de seis irmãos, perde seu pai, vítima de
tuberculose. Em 1865, é a vez de sua mãe, Margarete,
falecida aparentemente também de tuberculose, aos 39 anos de
idade. Entre esta data e 1889, quando pinta esta composição,
a mesma moléstia terá levado sucessivamente todos os seus
cinco irmãos e irmãs. Recordando-se desses anos, Hodler
escreverá: “”Parece que havia sempre um cadáver em casa e que
as coisas tinham que ser assim””.

Por outro lado, Hodler entende atribuir um significado mais
geral à sua obra, tal como se lê em um manuscrito conservado
na Biblioteca de Genebra (apud Hirsch, 1982, p. 71):

“”Presentemente, minha obra mais importante, na qual me
revelo sob uma nova luz, é ´Noite´. Sua aparição é
dramática. Não se trata de uma noite, mas de um conjunto de
impressões da noite. O fantasma da morte não surge aí para
significar que muitos homens são surpreendidos pela morte no
meio da noite, como afirmou a Gazette de Cologne, mas aí
está como o mais intenso fenômeno noturno. O colorido é
simbólico: estes seres adormecidos estão cobertos por panos
negros; a luz é similar à do anoitecer após o crepúsculo, o
qual cria um efeito preliminar à noite. Mas o mais
marcante é o fantasma da morte. Este modo de representá-lo,
ao mesmo tempo harmonioso e sinistro, torna visível o
desconhecido, o invisível””.

A “”Noite”” não se reduz, portanto, à dimensão biográfica, mas
se reúne a uma tradição visionária romântica bem conhecida,
que, partindo de Füssli, atingia as obsessões de Max
Klinger, Alfred Kubin e outros, na qual fobias indistintas,
pulsões de morte e erotismo, intimamente interligadas,
vinham determinar todos os desenvolvimentos dominantes da
sensibilidade germânica.

A monumental tela foi, como se sabe, banida por razões
morais pelo Conselho Municipal de Genebra do Salão de Arte
de 1891. Hodler expõe-na então no Palais Electoral, outro
espaço da mesma cidade (em que se fixara desde 1872),
cobrando 1 marco pelo ingresso. A controvérsia atrai um
público numeroso e o artista arrecada fundos para expor sua
obra no Salon du Champ de Mars, em 1891.

Em Paris, ela chamará a atenção de Pierre Puvis de Chavanne,
artista por quem Hodler nutre verdadeira veneração. Era o
começo de um reconhecimento internacional que o levaria a
aderir, a partir de 1892, a uma temática mais serena,
expressa em obras como “”Comunhão com o Infinito””, no
Kunstmuseum de Basileia, em “”Sonho”” (1897-1903), conservada
em uma coleção particular em Zurich, e em paisagens de
grande variedade sentimental.

Luiz Marques
26/10/2011

Bibliografia
1982 – S. L. Hirsch, Ferdinand Hodler, Londres: Thames and
Hudson, pp. 8, 74.”

Artista

HODLER, Ferdinand

Data

1889/ 1890

Local

Berna, Kunstmuseum

Medidas

116 x 299 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

1700B3 - Artistas e Autoretratos; 1111J - Agonia e morte do
artista, a morte como artista; 1173 - O sonho, o pesadelo;
1188 - A Morte

Autor

Luiz Marques

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