A Oskar Panizza

George Grosz (1893-1959) deixou seu próprio testemunho
escrito deste quadro:

“Por uma rua estranha avança de noite uma procissão infernal
de figuras desumanizadas, em seus rostos se refletem o
álcool, a sífilis, a peste (.). Este foi meu protesto contra
uma humanidade que enlouqueceu” (apud N. Wolf).

O quadro figura um enterro. No cenário noturno de um
boulevard entre arranha-céus, apinha-se uma multidão
acompanhando um féretro, sobre o qual se senta uma grande
caveira bebendo aguardente.

O letreiro Heute Tanz (Hoje Dança) sobre a porta do
prédio é uma evidente alusão ao mesmo tempo à Guerra e à
iconografia da dança macabra ou dança da morte. O féretro
dirige-se, seja para esta porta, seja para a pequena igreja
ao fundo comprimida pelos prédios. Entre seus acompanhantes,
distinguem-se uma figura com uma monstruosa cabeça de
carneiro, alusiva talvez à docilidade do rebanho, um padre
católico e um oficial brandindo um sabre e tocando um
trompete, possivelmente alusivo ao toque de carga militar.

O destinatário deste quadro encontrava-se desde 1905
encerrado em um manicômio e é talvez de seu enterro
simbólico que se trate aqui.

Símbolo trágico do inconformismo contra o autoritarismo
religioso e político, Oskar Panizza (1853-1921) é um
psiquiatra, escritor, poeta e dramaturgo alemão, de origem
paterna italiana. Formado em psiquiatria em 1880 na
Universidade de Munique, torna-se de 1881 a 1883, juntamente
com Emil Kraepelin, assistente de Bernhard von Gudden, o
famoso psiquiatra de Ludwig II da Baviera, encontrado morto
no Lago Starnberg com o monarca, afogados ou assassinados,
em 13 de junho de 1886.

Abandonando em 1883 o exercício da medicina, Panizza dedica-
se exclusivamente à literatura. Sua celebridade advém
notadamente da peça Das Liebekonzil. Ein Himmelstragödie
in Fünf Aufzugen
(O Conselho do Amor. Uma Tragédia
Celeste em cinco atos), publicada em Zurich em 1894.

Ambientada em 1495 e tendo por tema a sífilis como signo da
cólera divina contra a depravação do papa Alexandre VI
Borgia, a peça lhe valeu uma condenação a um ano de prisão
em Munique, sob acusação de conter 93 blasfêmias
transgressivas ao Reichstrafgesetzbuch, o código
penal guilhermino.

O escândalo do processo contra Panizza mobilizou os meios
literários e intelectuais alemães e seu impacto sobre a
sociedade alemã, ainda que decerto muito menor, pode ser
comparado ao trauma produzido na França pelo contemporâneo
affaire Dreyfus (1894-1906). Curiosamente, o jovem
Thomas Mann, colega de Panizza na Universidade de Munique,
posiciona-se então contra ele, dada o que ele chama de
“falta de gosto” (Geschmacklosigkeit) de tais
blasfêmias.

A partir de 1896, cumprida a pena, Panizza viverá em Zurich,
de onde será expulso em 1898, alegadamente por ter mantido
relações sexuais com uma prostituta de 15 anos, o que o
poeta negará em suas memórias.

Muda-se então para Paris. Em seu livro de poesias intitulado
“Parisjana”, Panizza declara-se “adversário pessoal do
imperador Guilherme II, e o denuncia como inimigo público da
humanidade e da cultura”. O livro é objeto de acusações à
lesa-majestade do imperador, o que leva ao bloqueio dos
bens do autor na Alemanha.

Em 1901, desprovido de recursos, Panizza entrega-se em
Munique às autoridades alemãs. Sua condição mental
deteriora-se decisivamente e ele passará os dezesseis
últimos anos de sua vida em um sanatório psiquiátrico nas
imediações de Bayreuth.

Luiz Marques
19/12/2011

Bibliografia:
1983 – P.D.G. Brown, Oskar Panizza. His Life and Works.
Berna e New York: Lang.
2004 – N. Wolf, Espresionismo. Tradução espanhola.
Colônia: Taschen, p. 42.

Artista

GROSZ, George

Data

1917/ 1918

Local

Stuttgart, Städtische Galerie

Medidas

140 x 110 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

História Medieval Moderna e Contemporânea

Período

SÉCULO XX

Index Iconografico

736 - A dança macabra e o triunfo da morte; 1100Gue - A
Guerra e os Horrores da Guerra; 1111J - Agonia e morte do
artista, a morte como artista; 1188 - A Morte; 875met - A
metrópole; 1338 - A Multidão

Autor

Luiz Marques

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