A Tentação de Santo Antonio Abade

“Salvo engano, o tema das tentações de S. Antonio Abade não existe, ou não se conserva, na pintura antes dos anos 1420 e não provém da área setentrional da Europa, como poderiam fazer crer a gravura de Martin Schongauer e o prestígio alcançado pelo tema em Bosch, Cranach e Lucas van Leyden no primeiro decênio do século XVI.

Ele provém da Toscana, onde Sassetta e Fra Angelico, entre 1423 e 1440, os inserem em predelle, em cenas de fábula, quase de miniatura, nas quais os demônios assumem o aspecto de belas jovens, de pepitas de ouro ou descrevem saltitantes coreografias em torno do santo.

Mas é somente com Schongauer, por volta de 1470-1475, que o tema oferece a ocasião para a encenação de figuras grotescas, em compasso com o favor de que goza a temática demoníaca no final do século XV. Châtelet [1991:268] sugere que os demônios de Schongauer tenham por modelo o retábulo de Albert van Ouwater na Capela Real de Granada.

Esse interesse pelo demoníaco atinge um ápice na Itália com Bernardo Parentino cuja obra na Galleria Doria-Pamphilj de Roma data de 1490-1494c. Destes mesmos anos, provavelmente por volta de 1490, data a cópia realizada por Michelangelo desta gravura de Schongauer, hoje identificada por muitos estudiosos com a obra adquirida pelo Kimbell Art Museum em Fort Worth, no Texas.

Na Vita de Marcantonio Bolognese (1550 e 1568), Vasari já se referia ao episódio da cópia michelangiana de Schongauer, artista renano que ele situa em Antuérpia, induzido, talvez, por informações trasmitidas por Lambrecht Lombard e pela nacionalidade flamenga dos marchands de Schongauer na Itália:

un Martino, che allora era tenuto in Anversa eccellente pittore, fece molte cose e mandò in Italia gran numero di disegni stampati, i quali tutto erano contrasegnati in questo modo: .MC.; (…) In un´altra [carta] fece Santo Antonio batuto dai diavoli e portato in aria da una infinità di loro in le più varie e bizzarre forme che si possino imaginare: la quale carta tanto piacque a M., essendo giovinetto, che si mise a colorirla

“”um Martino que então era tido em Antuérpia por excelente pintor, fez muitas coisas e enviou à Itália grande número de desenhos gravados, todos assinados: .MC.; Em outra [gravura], fez Santo Antônio batido pelos diabos e suspenso ao ar por uma infinidade deles nas mais bizarras formas que se possam imaginar, e tal gravura tanto agradou a M., ainda rapazote, que ele a coloriu””.

A presença desta gravura na Itália é documentada também em Lomazzo [1584:III,290].

Martin Schongauer foi muito copiado na Itália. Cristofano Robetta grava dele um São Paulo; Nicoletto da Modena, uma cena de mercado, e um artista anônimo (Gherardo del Fora?), uma Anunciação.

A gravura se conserva hoje, segundo Lehrs [1925:n.54], em sete exemplares, entre os quais Paris, Bibliothèque nationale de France; Zurique, Graphik Sammlung, Eidgenössische Technische Hochschule e esta de New York, The Metropolitan Museum of Art.

Luiz Marques
06/01/2011″

Artista

SCHONGAUER, Martin

Data

1470/ 1475

Local

New York, The Metropolitan Museum of Art

Medidas

314 x 231 mm

Técnica

Água-forte

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

806 - Imagens e Ciclos Biográficos de santos; 806AntA - Santo Antônio Abade

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *