A Velha (A velhice)

Registro inventarial: inv. n. 85

Segundo o inventário de 1569 da coleção de Gabriele
Vendramin, tratar-se-ia do retrato da mãe de Giorgione
(1477c.-1510):

retrato della Madre de Zorzon de man de Zorzon con suo
fornimento depento con l´arma de chà Vendramin

“retrato da Mãe de Giorgione de mão de Giorgione com sua
moldura pintada com as armas de casa Vendramin”

Esta identificação suscita certa perplexidade, pois as armas
dos Vendramin não se encontram sobre a moldura e, ademais, é
improvável, ainda que não impossível, que o pintor, então
com aproximadamente 30 anos, possa ter por mãe alguém com
aparência tão envelhecida. De qualquer modo, a presença do
parapeito, típica dos retratos funerários, induz a pensar
que se trate de um retrato póstumo.

O inventário da mesma coleção, em 1601, informa além disso
que:

il coperto del detto quadro depento con un´homo con una
vesta di pelle negra

“a tampa deste quadro é representa um homem vestido com um
casaco de pele preta”.

As duas imagens assim conjugadas – a da velha e a do homem –
configuram uma Vanitas, então bastante recorrente,
explicitada pela inscrição “Col Tempo” (Com o Tempo), plena
de ressonâncias literárias e talvez retirada precisamente da
Égloga Pastoril de Cesare Nappi, de 1508, tal como proposto
por Battisti (“Temos que saber nos consolar / Com o tempo e
atravessar este vazio mundo / Pois só Deus nos pode
ajudar”).

Nos mesmos anos da obra em exame, encontramos essa
conjugação de um retrato de homem e de uma velha no pequeno
Retrato de Jovem* de Dürer (35 x 29 cm), do Museu de Viena,
datado de 1507, e que mostra em seu verso uma “Velha semi-
nua com Dinheiro”*. Dürer pintou-os em Nuremberg
imediatamente após seu retorno de Veneza e é plausível a
conjectura, cogitada por Morassi e Battisti, de que ambos os
pintores tenham conhecimento da obra do outro ao pintar a
sua.

Em todo o caso, parece certo que Giorgione e Dürer reiteram
nestas obras o mesmo topos da velhice como
advertência contra a vaidade e as ambições mundanas. E,
contudo, nada pode ser mais diverso da repugnante “Velha
semi-nua com Dinheiro” de Dürer que esta Velha de Giorgione,
que parece pronunciar, com sua boca aberta, o que se lê em
seu cartellino, em um gesto quase auto-acusatório e
de aguda consciência de sua condição.

Contrariamente à velha de Dürer, a empatia de Giorgione com
o modelo é onipresente. A ação deformante do tempo sobre o
semblante do modelo não é atenuada, mas Giorgione recusa a
crueldade e nada concede à caricatura. Não há lugar aqui
para o riso fácil e insano de uma decrepitude escarnecida
como retorno à infância, tal como se vê em Dürer ou nas
páginas implacáveis do Elogio da Loucura de Erasmo de
Rotterdam, de 1509. Tampouco se encontrará no pathos
desta figura admirável qualquer reminiscência dos exercícios
exploratórios de Leonardo da Vinci sobre a velhice como
desfiguração, como brutalização ou como tipo fisiognomônico
do mal, da lascívia, etc.

Parece, enfim, particularmente difícil seguir a atribuição
da obra a Tiziano, avançada por Michelangelo Muraro e por
Panofsky, sobretudo a partir da argumentação deste último de
que a terribilità não é um atributo típico de
Giorgione. Justamente. Mas este é, na realidade, um
argumento decisivo em favor de Giorgione. Pois longe de ser
“terrível”, esta figura é uma das mais pungentes e
solidárias representações da velhice na história da arte, um
retrato que é acima de tudo uma reflexão moral sobre a
finitude, impregnada de rara, quase única, compaixão.

Luiz Marques
27/10/2010

Bibliografia:
1942 – A. Morassi, Giorgione, Milão, 1942
1960 – E. Battisti, Rinascimento e Barocco, Turim, trad.
espahola, Madri, 1990, p. 112
1968 – P. Zampetti, M. Brock, S. Béguin, Tout l´oeuvre peint
de Giorgione, Paris, p. 91
1969 – E. Panofsky, Problems in Titian. Mostly iconographic.
Trad. francesa, Paris, 1989, p. 132
1989 – P. Strieder, DÜrer. Roma, Rizzoli, p. 239-242
1992 – P. Vescovo, “L´allegoria e l´ultima Verità del
Ritratto”. Eidos, 10, pp. 47-61
1995 – M. Lucco, Giorgione, Milão, p. 114
1997 – J. Anderson, Giorgione. The painter of “Poetic
Brevity”, Paris, New York, p. 302
2005 – P. Thane (ed.), A History of Old Age. Los Angeles,
The J. Paul Getty Museum, p. 101
2008 – A. Chastel, Giorgione, l´insaisissable. Paris, p. 48

Artista

Giorgione

Data

1507/ 1510c.

Local

Veneza, Galleria dell'Accademia

Medidas

68 x 59 cm

Técnica

Oleo sobre madeira transplantado sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C1 - Retratos Pintura; 1700C2 - Retrato Mitológico e
Alegórico; 1104 - Representações do Tempo ; 1104Hom - As
Idades do Homem; 1104velh - A Velhice

Autor

Luiz Marques

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