Anúncio aos Pastores e Adoração dos Pastores

Em uma das faces da base marmórea, lê-se a inscrição: AMICUS BONONIENSIS FACIEBAT.

Uma das quatro obras assinadas de Amico Aspertini (1474-1552), esta Adoração dos Pastores, com ao fundo a cena do anúncio, foi pintada pelo grande artista bolonhês durante sua estada juvenil em Roma, onde, junto com o pai, Giovanni Antonio Aspertini, empenha-se na decoração pictórica do orgão da basílica de S. Pedro.

O modelo da obra é de modo palmar o afresco de tema homônimo de Pintoricchio em S. Maria sopra Minerva, mas também as obras de Perugino e dos artistas florentinos executadas em Roma ao longo dos últimos dois decênios do século XV (Capela Sistina, Capela Carafa, Apartamentos Borgia, etc.), sem esquecer, como nota Degli Esposti, o retábulo da Adoração dos Pastores de Hugo van der Goes (Uffizi), que tanta admiração havia suscitado em Florença em 1483.

A evidência dada aos relevos romanos, pintados com entusiasmo repertorial, é bem sintomática do impacto de Roma antiga sobre o jovem pintor bolonhês, o qual, contudo, dela se apropria com seu indefectível senso de estranhamento: a águia que pousa sobre o que se afigura ser um sátiro deitado sugere uma relação erótica (e demoníaca?), impressão que o relevo da máscara na base do pódio reforça.

O esplêndido manto da Virgem, com seu sistema de pregas a “pano engomado”, o interesse pelo valor quase de matéria preciosa dos brancos (como nas vestes dos pastores e no tecido que pende como uma natureza morta de um dos troncos da choupana), o desinteresse pela unidade da composição, a ausência de ortogonais que escandem o espaço em perspectiva, a não-observância de uma escala consistente das figuras, são alguns dos elementos que traem a receptividade de Aspertini à sensibilidade e ao paisagismo nórdicos.

Assim, não obstante seus modelos serem, como acima afirmado, florentinos, a obra mostra uma orgulhosa independência em relação a práticas hegemônicas da pintura florentina em torno de 1500.

Além dos relevos marmóreos, outras duas particularidades iconográficas chamam a atenção. A belíssima figura algo mourisca de S. José que olha o espectador de modo enigmático, ao mesmo tempo em que segura, com os punhos estranhamente cruzados, uma coroa de contas transparentes, identificável com um rosário.

O objeto remete, por exemplo, ao Retrato de jovem com rosário* de Hans Baldung Grien nas coleções régias de Windsor, e pode designar, como sugere Degli Esposti, uma comitência dominicana.

A segunda particularidade, muito notada pelos

Artista

ASPERTINI, Amico

Data

1496/ 1500c.

Local

Berlim, Staatliche Museen

Medidas

114 x 80 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

606A7 - Anúncio aos Pastores; 606A8 - Adoração dos Pastores

Autor

Luiz Marques

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