Apolo, Mársias e Olimpo

“Registro inventarial: inv. 26051

Há uma inscrição aposta ao camafeu: “”Lau.R.Med.””, onde o R poderia ser lido seja como uma continuação de Laur[entius], seja como a palavra Rex, ambiguidade vantajosa em uma cidade já governada de fato por Lorenzo il Magnifico, mas ainda formalmente uma República.

A obra foi adquirida em 1487 por Lorenzo de´ Medici, do marchand veneziano Domenico di Piero, conforme atesta uma carta de Paolo Antonio Soderini, então embaixador de Florença em Veneza, a Niccolò Michelozzi, em Florença, de 2 de Outubro de 1487.

O relevo, atribuído a Dioscúrides, artista alexandrino muito apreciado por Augusto e autor de um retrato de César, representa o mito de Apolo e Mársias. Vencido em seu desafio ao deus, Mársias é atado ao tronco de uma árvore para ser esfolado por Apolo, que permanece inclemente aos apelos de Olimpo, filho do imprudente sátiro.

Ele pertenceu a Pietro Barbo (Paulo II), de Veneza, cuja coleção de camafeus antigos e pedras gravadas atingia em 1457 a cifra de 821 peças.

A corniola foi transformada em um sigilo por Lorenzo Ghiberti, sobre o qual o escultor e ourives deixou um registro importante em seus I commentarii, livro II, vi.1:

“”Nessa ocasião encastrei em ouro uma cornuola da grandeza de uma noz, em cuja superfície estavam esculpidas três figuras egregíssimas, feitas pelas mãos de um excelente mestre antigo. Fiz em tamanho diminuto um dragão com as asas um pouco abertas e com a cabeça baixa e o colo alçado; as asas serviam de empunhadura do sigilo. O dragão, ou serpente, estava entre folhas de hera. Estavam por mim entalhadas em torno de tais figuras letras antigas intituladas com o nome de Nero, que fiz com grande diligência. Dentro dessa cornuola havia as seguintes figuras: um velho sentado em uma pedra, uma pele de leão, e tinha atadas as mãos a uma árvore seca; a seus pés havia um infante ajoelhado e olhava um jovem que tinha nas mãos uma cítara: parecia que o infante pedisse algum ensinamento ao jovem. Estas três figuras representavam as idades do homem. Eram certamente de Pergótiles ou de Policleto, tão perfeitas quanto jamais vi em um trabalho de baixo-relevo””.

A montagem do camafeu pelo artista dataria de 1428 e traz a inscrição: NERO. CLAVDIVS. CAESAR. AVGUSTUS. GERMANICUS. P. MAX. TR. P. IMP. P. P.

O fato de Ghiberti ter criado uma inscrição tão rica de intrigantes conotações políticas não poderia deixar de despertar a atenção dos historiadores.

Mas outro fato chama a atenção nesse passo. Embora o mito de Apolo, Mársias e Olimpo não se houvesse se eclipsado na literatura medieval, Ghiberti, que escreve em 1447 ou 1448, não é ainda capaz de o reconhecer nas três figuras que compõem a cena do camafeu, que ele acredita representarem as três idades do homem.

Não se trata de um lapso do artista, pois quase vinte anos depois, em 1465, o tema da célebre corniola permanecerá ainda um enigma para um artista erudito como Filarete (Trattato, livro XXIV), que se limita a parafrasear Ghiberti:

“”tal como a corniuola do Patriarca [Ludovico Trevisan], onde há três figuras digníssimas quanto seja possível fazer: um nu com as mãos para trás atadas a uma árvore seca, e uma com um certo instrumento em mãos e com panos da cintura para baixo, e uma de joelhos””.

Este célebre relevo, pertencente às coleções de antiguidades mais prestigiosas da Itália dos séculos XV e XVI – Ludovico Trevisan, Pietro Barbo, Lorenzo de´ Medici e os Farnese – foi muito copiado e transposto em diversos suportes. Ele recomparece, por exemplo, no colar de uma figura pintada por Botticelli (ou por seu ateliê), talvez um retrato ideal de Simonetta Vespucci, hoje no Städel Kunstinstitut de Frankfurt, inv 936.

Luiz Marques
07/01/2011

Bibliografia:
1447-48 – L. Ghiberti, I commentarii, livro II, vi.1. Ed. L. Bartoli, Florença, Giunti, 1998, p. 94.
1956 – R. Krautheimer, Lorenzo Ghiberti, Princeton, 1970, vol. I, p. 13
1961 – A. Chastel, Art et Humanisme à Florence au temps de Laurent le Magnifique. Paris, 1982, p. 48
1996 – E. Wyss, The Myth of Apollo and Marsyas in the Art of the Italian Renaissance. An Inquiry into the Meaning of Images, Newark, Londres, 1996, pp. 43-44
1996 – S. Osano, “”Due Marsia nel giardino di Via Larga: la ricezione del ´decor´ dell´antichità romana nella collezione medicea di sculture antiche””. Artibus et Historiae, 17, 34, pp. 95-120, p. 95
2006 – L. Fusco e G. Corti, Lorenzo de´ Medici. Collector and Antiquarian, Cambridge University Press”

Artista

Anônimo

Data

-50a. C. circa

Local

Nápoles, Museo Archeologico Nazionale

Medidas

desconhecidas

Técnica

pietra dura

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

ARTE GRECO-ROMANA

Index Iconografico

12Apo - APOLO Febo, Hélio, Sol;
12Apo8 - Apolo, Mársias, Olimpo e o escravo cita

Autor

Luiz Marques

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