Aureus comemorativo da divinização (Consecratio) do Imperador Adriano

Inscrição: DIUUS HADRIANUS AUG / CONSECRATIO

No obverso da moeda, Adriano é visto com uma coroa de
louros. No reverso, é levado aos céus por uma águia. Adriano
morre em Baiae, no golfo de Nápoles, em 10 de julho de 138.
O autor da “Vida de Adriano” (XXV) nos Scriptores
historiae augustae
(final do século III ou século IV),
que assina Aelius Spartianus, assim descreve sua morte, aos
62 anos, após vinte anos de império:

Post haec Hadrianus Baias petiit Antonino Romae ad
imperandum relicto, ubi cum nihil proficeret, arcessito
Antonino in conspectu eius apud ipsas Baias periit die VI
iduum Iuliarum, invisusque omnibus sepultus est in villa
Ciceroniana Puteolis

“Após isso, deixando Antonino no governo em Roma, Adriano
partiu para Baiae, onde não obteve contudo nenhuma melhora.
Mandou chamar então Antonino e em sua presença, em Baiae,
faleceu no dia 10 de julho, detestado por todos, e foi
sepultado na villa de Cícero em Pozzuoli”

A villa de Cícero, sobre o lago Lucrino, tornara-se
de há muito, com efeito, propriedade imperial. Em 139, os
restos mortais de Adriano são depostos em seu enorme
mausoléu em Roma, iniciado em finais dos anos 120 e
terminado por Antonino.

Sempre segundo a mesma fonte, Antonino teve de vencer sérias
resistências no Senado, contrário à sua deificação:

In mortuum eum a multis multa sunt dicta. Acta eius
inrita fieri senatus volebat, nec appellatus esset divus,
nisi Antoninus rogasset. Templum denique ei pro sepulchro
apud Puteolos constituit et quinquennale certamen et
flamines et sodales et multa alia, quae ad honorem quasi
numinis pertinerent. 4 qua re, ut supra dictum est, multi
putant Antoninum Pium dictum
.

“Muito se disse contra ele por muitos após sua morte. O
Senado queria anular seus decretos e ter-se-ia recusado a
chamá-lo divus, não fossem os rogos de Antonino.
Enfim, este construiu-lhe um templo em Pozzuoli para
substituir a tumba e instituiu um certame quinquenal,
sacerdotes (flamen) e sodales [sacerdotes
encarregados do culto de um Imperador], e muitas outras
coisas atinentes às honras devidas a um nume”.

Entre estas honrarias, conta-se justamente esta moeda de
ouro (aureus) cunhada por ordem de Antonino para
celebrar a consecratio ou divinização de Adriano.

Não se conservaram descrições dessa consecratio, mas,
segundo Thorsten Opper, ela deve ter-se conformado ao rito
de deificação em geral, que era público e tinha lugar no
Fórum, em torno de uma imagem de cera do Imperador.

Após ser exibida em procissões diversas fora de Roma, a
imagem era enfim cremada em uma pira enriquecida com
esculturas e objetos preciosos. Oculta em seu topo, uma
águia era liberada imediatamente antes do retrato ser
consumido pelas chamas. Seu voo simbolizava a apoteose do
Imperador (ou da Imperatriz ou de outros membros da família
imperial), isto é, a assunção da “alma” do defunto à morada
celeste dos deuses.

Conforme demonstram imagens representadas no reverso de
diversas moedas comemorativas da apoteose dos Imperadores –
de Antonino Pio a Constâncio Cloro, passando por Faustina
Maior -, essas piras chegavam a quatro andares. Segundo
Alfred Fraser, para emular os sepulcros imperiais antigos,
Michelangelo teria adotado por modelo, em seu colossal
projeto de 1505 para o sepulcro de Júlio II, a imagem da
pira que figura no reverso do sestércio comemorativo da
consecratio de Antonino Pio. Segundo o autor,
Michelangelo, seguindo um equívoco comum, teria considerado
que a pira representada neste sestércio representava o
mausoléu de Antonino Pio.

Luiz Marques
07/03/2012

Bibliografia:
Séculos III-IV – Scriptores historiae augustae. Texto e
trad. por David Magie, 3 volumes, Londres: Loeb, vol. I,
1921, pp. 77-81
Basileia, Froben, 1518
1947 – H.P. L´Orange, Apotheosis in Ancient Portraiture.
Oslo, pp. 66-67.
1975 – A. Fraser, “A Numismatic Source for Michelangelo´s
First Project for the Tomb of Julius II”.The Art Bulletin,
57, 1, pp. 53-57.
1987 – M. Taliaferro Boatwright, Hadrian and the City of
Rome, Princeton University Press, p. 175.
2008 – T. Opper, Hadrian: Empire and Conflict, Harvard
University Press.

Artista

Arte Romana

Data

138

Local

Londres, British Museum

Medidas

desconhecidas

Técnica

Ouro

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

ARTE GRECO-ROMANA

Index Iconografico

396 - Cenas e Personagens de Roma sob Adriano 118-138;
431 - Apoteoses de Imperadores, heróis e poetas;
1700B2 - Retrato Mitológico e Alegórico

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *