Auto-retrato e a morte

O Autoretrato e a morte de Gaspard Maséry, pintor
ativo em Chambéry (Savoie) entre 1545 e 1565, pode
representar um memento mori, uma das figuras da
Vanitas que começam a grassar no século XVI.

Mas a obra remete também a uma fábula difusa no século XVI:
a “Morte”, de tão bem pintada pelo artista, ganha vida e o
mata. O tema da morte do artista vitimado pela “Morte” que
ele pinta ressurge, de fato, em uma passagem da Vida de
Francesco Francia
de Giorgio Vasari (1550). Após narrar
a morte tragicômica do pintor bolonhês Francesco Francia,
vítima de um practical joke de Rafael, que lhe pedira
para instalar e eventualmente “corrigir” sua Santa
Cecilia*
da Pinacoteca de Bolonha, Vasari não deixa de
extrair da fábula sua lição:

[Francia] di dolore e malinconia, come alcuni credono, si
morì, essendoli advenuto, nel troppo fisamente contemplare
la vivissima pittura di Raffaello, quello che al Fivizano
nel vagheggiare la sua bella Morte, de la quale è scritto
questo epigramma:

Me veram pictor divinus mente recepit.
Admota est operi deinde perita manus.
Dumque opere in facto defigit lumina pictor
Intentus nimium palluit et moritur.
Viva igitur sum Mors, non mortua Mortis imago,
Si fungor, quo Mors fungitur, officio
.

[Francia] “de dor e melancolia, como alguns acreditam,
deixou-se morrer, advindo-lhe, de tanto contemplar fixamente
a vivíssima pintura de Rafael, o que sobreveio a Fivizano ao
contemplar sua bela `Morte`, a respeito da qual se escreveu
este epigrama:

O pintor divino recebeu-me, verdadeira, na mente.
Em seguida, a mão perita dirigiu-se à obra.
E à medida em que nela fixava as cores
Por demais atento, empalideceu e morreu.
Pois sou a Morte viva, não a morta imagem da Morte,
Se cumpro o dever que a morte cumpre”.

Como faz notar Gaetano Milanesi, a mesma fábula do artista
possuído pela morte ou nela transfigurado retorna ainda no
século XVII, agora com o nome de Novizzano, na pena de
Federigo Meninni: “Novizzano, pittor celebre muore in
mirando un effigie di morte da lui dipinto”

É difícil precisar se Vasari inventou o misterioso
“Fivizano” ou se reelabora aqui um tema então melhor
conhecido e que se poderia entender como uma variante
macabra da história de Pigmalião. Esta segunda alternativa é
fortalecida justamente por este Autoretrato e a morte
de Gaspard Maséry, datado do mesmo decênio da publicação das
Vidas do biógrafo aretino.

Luiz Marques
09/07/2010

Artista

MASÉRY, Gaspard

Data

1559

Local

Chambéry, Musée des Beaux-Arts

Medidas

181 x 85 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C3 - Artistas e Autoretratos; 1111 - O Mundo e o Mito do
Artista; 1111J - Agonia e morte do artista, a morte como
artista; 1111C1 - Pigmalião e Galatéia

Autor

Luiz Marques

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