Autorretrato em um espelho convexo

Registro inventarial: inv. n. 286

Na “Vida de Parmigianino” (1568), Giorgio Vasari descreve
esta obra entre as três executadas pelo artista (1503-1540)
como uma própria recomendação destinada a abrir-lhe as
portas da corte de Clemente VII em Roma:

[Parmigianino] per investigare le sottigliezze dell´arte,
si mise un giorno a ritrarre se stesso guardandosi in uno
specchio da barbieri, di que´ mezzo tondi; nel che fare
vedendo quelle bizzarrie che fa la ritondità dello specchio
nel girare che fanno le travi de´ palchi, che torcono, e
le porte e tutti gl´edifizî che sfuggono stranamente, gli
venne voglia di contrafare per suo capriccio ogni cosa.

Laonde fatta fare una palla di legno al tornio, e quella
divisa per farla mezza tonda e di grandezza simile allo
specchio, in quella si mise con grande arte a contrafare
tutto quello che vedeva nello specchio, e particolarmente se
stesso, tanto simile al naturale che non si potrebbe stimare
né credere; e perché tutte le cose che s´appressano allo
specchio crescono, e quelle che si allontanano diminuiscono,
vi fece una mano che disegnava un poco grande, come mostrava
lo specchio, tanto bella che pareva verissima.

E perché Francesco era di bellissima aria et aveva il volto
e l´aspetto grazioso molto e piùtosto d´angelo che d´uomo,
pareva la sua effigie in quella palla una cosa divina; anzi
gli successe così felicemente tutta quell´opera, che il
vero non istava altrimenti che il dipinto, essendo in
quella il lustro del vetro, ogni segno di riflessione,
l´ombre et i lumi sì proprii e veri che più non si sarebbe
potuto sperare da umano ingegno
.

“Para investigar as sutilezas da arte, [Parmigianino]
começou um dia a se retratar, olhando-se em um espelho de
barbeiro, daqueles convexos. E vendo as bizarrias produzidas
pelas curvaturas do espelho, entortando as traves do teto e
fazendo as portas e todos os edifícios distanciarem-se
estranhamente, teve vontade de tudo representar segundo tal
capricho.

Mandou então fazer uma esfera de madeira do tamanho de um
espelho e dividiu-a ao meio. E sobre ela começou a
representar tudo o que via no espelho e em particular a si
próprio, tão similarmente ao natural que não se poderia
imaginar ou crer. E dado que todas as coisas que se
aproximam do espelho crescem e as que dele se distanciam
diminuem, pintou a mão que desenhava um pouco grande, tal
como a mostrava o espelho, tão bela que parecia extremamente
verdadeira.

E como Francesco era de belíssima fisionomia e tinha o rosto
e o aspecto gracioso e antes de anjo que de homem, sua
efigie parecia naquela esfera uma coisa divina. Na
realidade, foi-lhe tão exitosa a obra toda, que o verdadeiro
não se diferenciava do pintado, nela se vendo o lustro do
vidro, cada reflexo, as ombras e as luzes tão propriamente e
verdadeiros que mais não se poderia esperar do engenho
humano”.

Recebida a obra em dom do artista, Clemente VII a doa por
sua vez a Pietro Aretino, na casa de quem Vasari afirma tê-
la conhecido, acrescentando ter ela passado para as mãos do
escultor Valerio Belli Vicentino e destas, por intermédio de
Palladio, para as de Alessandro Vittoria, que a deixa em
herança ao Imperador Rodolfo II Habsburgo.

Em seu gosto pela anamorfose e pelo paradoxo do extremo
acume na representação e na deformação da realidade, este
autorretrato é ele próprio o espelho de certa disposição de
espírito, emergente nos anos 1520, que se convencionou
chamar no século XX pelo equívoco termo de “Maneirismo”.

Entusiasta da obra, Vasari nela vê um apogeu das qualidades
do artista virtuoso, capaz de vencer as dificuldades
técnicas a si mesmo impostas, no ímpeto de uma incessante
emulação com os mitos plinianos da arte da Antiguidade, com
os grandes mestres da Roma deixada por Rafael e, não por
último, com os jogos óticos de espelho tão apreciados pelos
pintores nórdicos, de Jan van Eyck a Quentin Metsys.

Mas Vasari, espírito não afeito ao bizarro, passa em
silêncio tudo o que neste pequeno autorretrato não lhe é
congenial, a saber, a especulação que aqui se insinua sobre
o caráter elusivo das formas no mundo visível e de si mesmo
nesse mundo, sobre a incerteza resultante do jogo de
ocultação recíproca entre aparência e essência das coisas.

Maurizio Fagiolo Dell´Arco (1970) remete a obra à notória
obsessão do artista pela alquimia, onde o redondo é a forma
correspondente à prima materia.

Luiz Marques
04/12/2011

Bibliografia:
1970 – M. Fagiolo Dell´Arco, Il Parmigianino. Un saggio
sull´ermetismo nel Cinquecento. Roma: Mario Bulzoni.
1980 – P. Rossi, L´Opera completa del Parmigianino, Milão:
Rizzoli, p. 93.
1995 – C. Gould, Parmigianino. New York: Abbeville Press,
pp. 51-53.
2002 – S. Ferino-Pagden, “L´autoritratto del Parmigianino.
La consistenza (im)materiale dell´autoritratto di Vienna”.
In, L. Fornari Schianchi, Parmigianino e il manierismo
europeo. Atti del Convegno, Milão, pp. 67-82.

Artista

PARMIGIANINO, Francesco Mazzola, chamado il

Data

1524

Local

Viena, Kunsthistorisches Museum

Medidas

24,4 cm de diâmetro

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C3 - Artistas e Autorretratos

Autor

Luiz Marques

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