Batalha de Anghiari. A Luta pelo estandarte

“Registro inventarial: inv. 20271

Iniciativa da República de Florença (1494-1512), a decoração pictórica da Sala del Gran Consiglio do Palazzo della Signoria culminava com afrescos de aproximadamente 7,5 x 17 m, encomendados a Michelangelo (1475-1564) e a Leonardo da Vinci (1452-1519).

Não se sabe ao certo a localização precisa destes afrescos, finalmente não executados. Segundo Johannes Wilde [1944:80], eles deveriam ser apostos em cada lado da mesma parede leste da sala, cabendo a Leonardo o lado direito da parede.

Contudo, desde o final dos anos 1960 prospecções na estrutura das paredes do Salone suscitaram dúvidas sobre as conclusões de Wilde, e Pedretti [1973:89] vai mesmo ao ponto de afirmar então que: “”não há certeza, hoje, sequer que a parede leste devesse ser subdividida em duas seções, a serem decoradas por cada pintor””.

A proposta de Wilde é, entretanto, reassumida por Muccini [1997:91]. Por outro lado, a parede oeste foi submetida entre 1974 e 1979 a sondagens de termovisão, ultrasom e estratigrafia, revelando um estrato anômalo sob os afrescos “”que iniciaria a cerca de 4 metros a partir da extremidade sul da parede oeste, cobrindo uma área de 4,5 m. de altura e 23 m. de comprimento””, conforme Nepi Siré [1992:256].

Os afrescos de Leonardo e de Michelangelo representam duas batalhas contra, respectivamente, Milão e Pisa, vencidas por cidadãos florentinos malgrado o parecer contrário dos soldados profissionais, que propugnavam o emprego de mercenários. Embora inspiradas em Maquiavel, que muito lutou para que Florença se dotasse de milícias citadinas, ambos os afrescos tiveram fontes textuais específicas.

No que se refere ao afresco de Leonardo, trata-se da Batalha de Anghiari, travada em 29 de junho de 1440. Nela, os florentinos, aliados aos venezianos e às milícias papais sob o comando de Pier Giampaolo Orsini, derrotaram mercenários a soldo do duque de Milão, Filippo Maria Visconti, comandados por Niccolò Piccinino.

A batalha teve lugar perto da estrada que leva de San Sepolcro ao Castelo de Anghiari e tinha por objetivo tático garantir o controle de uma ponte sobre o rio Tibre, a Ponte della Giustizia, obrigando o inimigo assim a recuar para Borgo San Sepolcro.

Leonardo serviu-se, dentre outras, da crônica de Pietro Dati, Trophaeum Anglicarum, de que se conservam trechos da tradução italiana no f. 202r. do Codex Atlantico. O tema foi escolhido por Pier Soderini, Gonfaloliere perpetuo da República, provavelmente por conselho de seu braço direito e cancelliere, Marcello Virgilio Adriani (1464-1521).

Sobre a origem da encomenda, Vasari assim se exprime na Vida de Leonardo:

“”Pela excelência portanto das obras deste diviníssimo artista, havia crescido tanto a fama sua, que todas as pessoas que se deleitavam com arte, ou antes, a cidade inteira desejava que ele lhe deixasse algo memorável; e cogitava se encomendar lhe uma obra notável e de grandes proporções, na qual o público fosse adornado e honrado por tanto engenho, graça e discernimento quanto se reconhecia nas coisas de Leonardo””.

Em 28 de fevereiro de 1505, levantavam-se na Sala del Gran Consiglio os andaimes para a execução propriamente dita do afresco, cf. Sirén [1928:137]. Em 6 de junho de 1505, Leonardo anota em um dos seus manuscritos, o Codex 8936 da Biblioteca Nacional de Madrid:

cominciai a colorire in Palazzo. Nel qual punto di posare il pennello, si guastó il tempo (…) Il cartone si stracció…

“”comecei a pintar no Palácio. Quando ia pousar o pincel, o tempo virou. (…) O cartão rasgou-se””.

A execução, que de início parece avançar velozmente, deve interromper-se em momento e condições desconhecidos e em 30 de maio de 1506 o contrato com Leonardo é finalmente cancelado. Chega-se então, aparentemente, a se cogitar em um substituto de Leonardo, pois em 1508 Rafael solicita ao tio uma carta de recomendação a Soderini, “”a qual me seria muito útil para decorar certa sala, cuja encomenda deve provir dele””, cf. Pedretti [1973:90]. Porém, assim como Michelangelo, Rafael logo em seguida seria atraído para a órbita de Júlio II.

As razões que levaram à interrupção da execução do afresco por Leonardo são de ordem técnica, embora permaneça difícil precisá-las. Segundo Antonio Billi:

“”[Leonardo] Atribuiu a culpa a ter sido enganado no óleo de semente de linho, que lhe fora falsificado.””

(continua no texto que acompanha a imagem de detalhe)

Artista

Leonardo da Vinci (cópia), retocada por Rubens

Data

1504(o original)

Local

Paris, musée du Louvre

Medidas

453 x 636 mm. Na origem: 428 x 577 mm

Técnica

Desenho

Suporte

Pintura

Tema

História Medieval Moderna e Contemporânea

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

866 - História Político-Militar na Europa após a Antiguidade; 866.1440 - Batalha de Anghiari

Autor

Luiz Marques

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