Cidade apocalíptica

Nascido de uma família judia de classe média em Bernstadt,
na Prússia oriental, Ludwig (Baruch) Meidner (1884-1966)
inicia em 1911 seu engajamento na constelação de movimentos
que compõem a vertente berlinense do expressionismo,
frequentando o Café des Westens, também chamado Café
Größenwahn (Café Megalomania), consagrado ponto de encontro
literário e artístico animado pela poeta Elsa Lasker-Schüler
e por seu esposo, Herwarth Walden, criador da revista Der
Sturm
e figura central do expressionismo alemão.

Com Richard Janthur (1883-1950) e Jacob Steinhardt (1887-
1968) , Meidner forma em 1912, expondo na Sturm-Galerie, o
grupo Die Pathetiker, nome alusivo ao espírito
dionisíaco inspirado no pensamento de Nietzsche.

O tema do caótico universo metropolitano então emergente
começa a ocupar o centro de sua reflexão artística e Meidner
dá-lhe então livre curso, sob a proteção e o incentivo de
Max Beckmann.

Como escreve Shulamith Behr (1992), “the urban landscape was
invested with elements of the primal and the cosmic as
Meidner responded to the theoretical and formal inspiration
of the Italian Futurists and Robert Delaunay, featured in
exhibitions at the Sturm-Galerie in spring 1912″.

Com efeito, uma estada em Paris entre 1905 e 1907
possibilitara, além da amizade com Amedeo Modigliani (1884-
1920), o conhecimento dos futuristas italianos e da
vanguarda parisiense, que decerto fortalecem seu interesse
pela cidade como figura emblemática da contemporaneidade.

Tal interesse, Meidner aplicará a Berlim. Já a partir de
junho de 1907, quando retorna à capital do Reich para
cumprir o serviço militar compulsório, seus vínculos com a
grande metrópole, então em plena efervescência cultural e
urbanística, são manifestos. Em uma carta a Franz
Landsberger, de 3 de janeiro de 1907, o pintor descreve-a
como “pugnaz, séria e florescente (…), a capital
intelectual e moral do mundo”.

Uma série de mais de dez grandes telas e numerosos desenhos
de Meidner tem por tema uma fantástica Berlim à vol
d´oiseau
, entre incêndios e explosões. Postas sob o
signo do binômio cidade / apocalipse, elas são executadas
por Meidner já a partir da exposição da Sturm-Galerie de
1912 e revelam a percepção da paisagem urbana como
experiência ótica, sob a influência do cromatismo
prismático de Robert Delaunay e dos futuristas italianos,
presentes, de resto, em Berlim em 1912. Excepcional a esse
respeito é a similaridade desta “Cidade apocalíptica” com o
Umberto Boccioni de “A Rua entra na casa”, de 1911.

Do ponto de vista de sua temática, a série permanece,
entretanto, relativamente ambígua. De um lado, como adverte
Charles Haxthausen (1990), o caráter apocalíptico dessas
obras não se explicita plenamente antes da eclosão da
guerra, pois apenas uma das 15 telas expostas em 1912 chama-
se “Cidade apocalíptica”, título que Meidner aplicará
retrospectivamente às demais telas da série apenas após
1915.

De outro lado, porém, é impossível negar-lhes o caráter
premonitório da devastadora conflagração que estava por se
abater sobre a Alemanha, caráter que se explica menos pela
lucidez da análise política, que por um genérico sentimento
escatológico, impregnado de obsessões neuropáticas e de
mística judaica (à qual Meidner se entregaria em definitivo
em 1923, renegando o expressionismo).

Assim, relembra-se ele em Mein Leben, de 1919:

“No verão de 1912 (…) eu descarregava dia e noite minhas
obsessões na tela – dias do Julgamento, fins do mundo e
forcas de caveiras, pois naqueles dias a grande tempestade
universal estava já batendo seus dentes e estendendo sua
brilhante luz amarela pelo meu choroso pincel”.

Luiz Marques
30/11/2011

Bibliografia:
1990 – C. Haxthausen, “Images of Berlin in the Art of
Secession and Expressionism”. In, Art in Berlin 1815-1989.
Catálogo da exposição, Atlanta, High Museum of Art, p. 69.
1996 – S. Behr, “Ludwig Meidner”. The Grove Dictionary of
Art, vol. 21, ad vocem.
2004 – N. Wolf, Espresionismo. Tradução espanhola. Colônia:
Taschen, p. 72.

Artista

MEIDNER, Ludwig

Data

1913

Local

Münster, Landesmuseum für Kunst und Kulturgeschichte

Medidas

79 x 119 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

História Medieval Moderna e Contemporânea

Período

SÉCULO XX

Index Iconografico

1109 - Catástrofe. Fim do Homem e do Mundo (contexto não-
religioso); 688E - Outros Apocalipses; 1209 - Representações
Alegóricas dos Países e Cidades; 1209Ber - Berlim; 1100Gue -
A Guerra e os Horrores da Guerra

Autor

Luiz Marques

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