Colonos Gaúchos

{Entre os anos de 1970 e 1973, o Governo fomenta, através do plano de Integração Nacional (PIN), uma política de ocupação da fronteira amazônica. Essa migração dirigida tem como meta povoar e colonizar extensos trechos na orla da rodovia Transamazônica, assim como transferir o excedente de população do Nordeste para a Amazônia, permitindo o acesso à “terra sem homem ao homem sem terra do Nordeste”. O instrumento principal dessa política foi o programa de Colonização Dirigida, que se propunha a assentar nas margens da Transamazônica mais de 1 milhão de famílias nordestinas até 1980. Em 1974, quando o programa foi desativado, apenas 5 717 famílias estavam estabelecidas na região. A desativação deu-se porque essas áreas, com o trabalho de preparação da terra feito pelos colonos, foram repentinamente valorizadas. O governo passa, então, a dar prioridade para a instalação de grandes empresas agropecuárias e de mineração. E os colonos começam a ser desalojados: “Nós viemos de outros Estados a fim de procurar terras (…). Viemos aqui à Transamazônica buscar terra e não para matar insetos. Eu fui enganado. Me prometeram terra, semente, crédito, casa, escola e médico. Só cumpriram uma promessa – a da terra. Aí veio a chuva grossa, a estrada virou lama e nós ficamos isolados do mundo, no meio do mato. Quase morremos de fome.” }
A imagem dos colonos, de Assis Hoffmann, tem a eloqüência das fotografias de artistas como Dorothea Lange, em especial a foto “Mãe Emigrante” realizada durante o projeto “Farm Security,” e hoje ícone fundamental da fotografia documental universal. Hoffmann exprime o drama enfrentado pela comunidade a partir de um retrato coletivo, que como a imagem mais famosa da fotógrafa norte-americana, tem por protagonista uma mãe com seus filhos pequenos. No entanto, enquanto a artista trabalha no início do século para um projeto do governo, o brasileiro coloca o governo em xeque com seu projeto. A composição da obra, um `flagrante` no meio do caos da realidade, está construída para explorar em todo seu peso o poder da imagem fotográfica como meio de comunicação e de denúncia. O artista capta num retrato detalhado da figura da mulher e duas crianças de colo o desespero comovente dos mais débeis, uma minoria sem voz. O artista não deixa nada ao azar, estampa ante os olhos do espectador a roupa furada, o choro desconsolado das crianças, a precariedade do entorno, o pedido de ajuda no olhar, as rugas no rosto marcando a testa entre as sobrancelhas como sinal da pele curtida pelo árduo trabalho ao sol. No fundo da imagem distinguimos o resto dos colonos, e enquanto suas figuras perdem definição e o artista prescinde de suas faces, só um jovem que caminha atrás da mulher, possivelmente um filho mais velho, olha a câmera. Nessa representação de toda a comunidade a mãe ocupa o primeiro plano, e através dessa protagonista que olha à distância, o fotógrafo tem a oportunidade de fazer sua declaração através do rosto dela com seus filhos nos braços. Aqui, o artista não só documenta os fatos, pois a escolha de seu referente apela a elementos culturais que garantem uma conexão com os espectadores, de forma que os protagonistas de Hoffmann se convertem em símbolos carregados de conotações universais.
Assis Hoffmann iniciará sua carreira profissional como repórter fotográfico no jornal Última Hora em Porto Alegre (1961-1964), exercendo o cargo de editor de fotografia quando o jornal mudou o nome para Zero Hora (1964-1969). Entre 1974 e 1976 assume a editoria de fotografia dos jornais Folha da Manhã, Folha da Tarde e Correio do Povo. Em 1969 funda a agência fotográfica Fotocontexto e passa a colaborar com inúmeras publicações nacionais, como as revistas Manchete, Realidade, Fatos e Fotos e Veja, e os jornais O Estado de S. Paulo, O Globo e o Jornal do Brasil.

Mónica Villares Ferrer, Mestre em História da Arte
19/05/2010.

Bibliografia:
(COLETIVO de Autores. Nosso século. São Paulo: Editora abril. Ano. Pág. 206)

Artista

HOFFMANN, Assis

Data

1972, Reserva Kaigang, Nonoai, Rio Grand

Local

Centro de la Imagen, México DF.

Medidas

24,5 x 32 cm

Técnica

Fotografia

Suporte

Pintura

Tema

Vida Social e Gênero

Período

O SÉCULO XX NA AMÉRICA HISPÂNICA E NO BRASIL

Index Iconografico

1504 - O Migrante, o Emigrante, o Imigrante e os Viandantes ; 1526 - A Pobreza Rural; 1512 - O Camponês e sua família ;

Autor

Luiz Marques

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