Cópia do S. Domingos da Coroação da Virgem de Fra Angelico

Trata-se de uma das diversas cópias que Edgar Degas (1834-
1917) realiza por volta de 1853 do retábulo da “Coroação da
Virgem” de Fra Angelico (1417-1455), conservado no Louvre
(inv. 314) desde 1812.

É frequentemente a forma plástica, os valores da escultura,
que Degas procura na pintura italiana do século XV, antes
ainda de realizar sua primeira estada na Itália em 1856. Que
se observem as cópias que ele realiza de artistas italianos
dos séculos XV e XVI no Louvre, não apenas de Fra Angelico,
mas também de Mantegna, Signorelli, Gozzoli, Filippino
Lippi, Leonardo, Rafael, Rosso, Daniele da Volterra e
Pontormo.

Nesses artistas, Degas procura sobretudo captar a definição
dos perfis, a potência do modelado, a densidade do volume. E
bem ao contrário de seguir o amigo Gustave Moreau, que lhe
escreve de Veneza, ele o chama a Florença, em uma carta de
27 de novembro de 1858, com o tom imperioso de um rapel à
l´ordre
:

pour vous presser un peu, si c´est possible, je vous
dirais qu´il est temps de venir dessiner à Florence, que
c´est assez de complaisance vis-à-vis de vos penchants à la
couleur

“para vos apressar um pouco, se possível, diria que é tempo
de vir desenhar em Florença, que basta de complacência em
relação a vossas inclinações pela cor”.

Na realidade, não se tratava de algo inabitual. Em Paris,
desde Ingres, “italianizava-se”, “fazia-se Quattocento”,
como lembrará Roberto Longhi (após Jacques-Émile Blanche) em
um ensaio memorável de 1950. Mas, para além da escolha dos
artistas, o que mais impressiona é a interpretação do
Quattrocento florentino proposta pelas cópias de Degas.

Pois não se encontra aí sombra da atitude purista,
romântica, sentimental ou savonaroliana sustentada desde ao
menos dois decênios pelas teses de Alexis-François Rio, bem
acolhidas em Paris por uma burguesia convertida a esta
espécie de neo-pietismo que Chateaubriand inaugurara e que
com Montalembert estava ainda longe de se esgotar.

A admiração de Degas por Fra Angelico, considerado em 1861
por Rio “l´artiste vraiment angélique”, poderia destoar um
pouco no contexto desta interpretação anti-sentimentalista,
sobretudo se recordamos que em 1859, quando Degas se
encontrava ainda em Florença, Pietro Selvatico publica seu
Del purismo nella pittura, na qual Friederich
Overbeck era chamado quell´Angelico de´ nostri dí,
pensatore profondo, compositore sapiente
.

Observemos atentamente, neste contexto, os perfis das
cabeças dos santos do “Coroamento da Virgem” de Fra Angelico
que Degas copia no Louvre. Enquanto Angelico continua a
suscitar ao logo do século XIX a costumeira devoção pré-
rafaelita, Degas percebe no pintor dominicano, quase um
século antes da intuição crítica de Longhi (1940), o
companheiro de armas de Masaccio.

Mais ainda que em seus célebres exercícios de modelagem em
cera, é com seus estudos juvenis do Quattrocento florentino
que Degas se afirmará, em suma, como o grande mediador
entre a pintura e a grande tradição clássica da escultura na
arte francesa do século XIX.

Luiz Marques
23/10/2011

Bibliografia:
1859 – P. Selvatico, “Del Purismo nella pittura”. Scritti
d´arte, ed. P. Barocchi, Storia Moderna dell´Arte in Italia,
I Dai Neoclassici ai Puristi. 1780-1861. Turim, 1998, p.
535.
1940 – R. Longhi, “Fatti di Masolino e di Masaccio”. La
Critica d´Arte, XXV-XXVI, julho-dezembro, pp. 145-91.
1948 – R. Longhi, “L´Impressionismo e il gusto degli
italiani”. Opere complete, XIV, Scritti sull´Ottocento e
Novecento, Florença: Sansoni, 1984, p. 6.
1950 – R. Longhi, “Un disegno per la Grande-Jatte e la
cultura formale di Seurat”. Paragone, I, 1950, pp. 40-43.
1984 – Jean Leymarie, Degas e l´Italia. Catálogo da
exposição, Accademia di Francia a Roma. Villa Medici, 1984-
1985, p. 8
1999 – G. Matteucci, “L´esperienza italiana di Degas.
Viatico attraverso il grande museo della tradizione
rinascimentale”. In, F. Cagianelli, E. Lazzarini, In
Toscana, dopo Degas. Dal sogno medioevale alla città
moderna. Com uma introdução de C. Sisi. Catálogo da
exposição, Crespina, Florença, pp. 11-20.
2002 – L. Capodieci, Gustave Moreau. Correspondance
d´Italie. Paris, Somogy éd. d´art, pp. 462-63.
2003 – G. Lacambre, “La vie artistique parisienne vue de
Rome pendant le séjour de Gustave Moreau”, in Maestà di
Roma. D´Ingres à Degas. Les artistes français à Rome.
Catálogo da exposição, Roma, Villa Médicis, pp. 127-131.
2005 – L. Marques, “Degas sculpteur et la Florence du
Quattrocento”. Rivista Paragone Arte, Florença, LV, 657, 58,
pp. 71-86.

Artista

DEGAS, Edgar

Data

1853c.

Local

Milão, Coleção particular

Medidas

181 x 144 cm

Técnica

Lápis

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

806 - Imagens e Ciclos Biográficos de santos; 806Domi - São
Domingos

Autor

Luiz Marques

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