Cornélia, mãe dos Gracchi, recusa a coroa de Ptolomeu

Em 1974, Pigler identifica a obra, segundo a tradição, como “Nino oferecendo sua coroa a Semíramis”. No Catálogo raisonné do pintor (1988) ela recebe a correta identificação, confirmada pela inscrição lacunar no frontão do templo de Júpiter (T. Gracch…).

Cornélia (189c. – 110c. a.C.) é a segunda filha de Públio Cornélio Cipião Africano Maior (236-183a.C.), vencedor de Anibal na célebre batalha de Zama (202). Seu proverbial filo-helenismo está na base da lenda de que aspirassse secretamente ao trono, lenda não destituída de interesse para a cena aqui representada.

Cornélia esposa Tibério Semprônio Gracco, tornando-se assim o elo de ligação entre as gentes Cornelia e Sempronia, ambas de excepcional relevo neste momento de primeiro apogeu da história romana. De Tibério, ela teve doze filhos, três dos quais apenas atingiram a idade adulta: Semprônia, futura esposa de Cipião Emiliano, e os tribunos Tibério e Caio Gracco, os grandes responsáveis pelas leis agrárias. Os três são representados à esquerda da cena, que tem por fonte textual antiga a Vida de Tibério e Caio Gracco de Plutarco. Viúva de Tibério Semprônio Gracco em 154 a.C., Cornélia recebe uma proposta de casamento de Ptolomeu VIII, Evergeta II, rei do Egito (então rei de Cirene), o que a tornaria rainha. Recusa-a, preferindo manter-se fiel à memória do marido (que se sacrificara por ela) e educar seus filhos na Roma republicana. A respeito, Plutarco escreve: “em sua viuvez, o rei Ptolomeu quis que ela compartilhasse com ele a honra do diadema régio e fazê-la rainha, pedindo-lhe a mão em casamento. Mas ela recusou”.

No exórdio de sua biografia dos Gracchi, Plutarco afirma que Tibério Semprônio, pai deles, “ainda que duas vezes cônsul e uma vez censor, ainda que tivesse recebido a honra de dois Triunfos, tinha entretanto mais dignidade e glória por sua virtude”. Tal é, naturalmente, o sentido desta iconografia de cunho neo-estoico.

Ignora-se o comitente do quadro, um dos momentos culminantes da elegância e vivacidade de colorido de La Hyre, que se esmera em precisão arqueológica. O estandarte da comitiva de Ptolomeu porta inscrições em hieróglifos e o pássaro sobre a insígnia, não uma águia romana, mas um íbis egípcio

Luiz Marques
15/02/2010

Bibliografia:
1974 – A. Pigler, Barock-Themen, 2 volumes, II p. 332.
1988 – P. Rosenberg e J. Thuillier, La Hyre, 1606-1656. L´´homme et l´´oeuvre. Genebra, Skira, cat. 229, p. 266

Artista

LA HYRE, Laurent de

Data

1646

Local

Budapest, Museu de Belas Artes

Medidas

138 x 123 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

334A - Cornélia, mãe dos Gracchi

Autor

Luiz Marques

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