Coroação da Virgem

Registro inventarial: inv. 314

Embora presente na iconografia mariana desde o século XIII,
o tema da Coronatio Mariae não se baseia em um texto
canônico, mas em uma tradição que remontaria ao apologista
Melito de Sardes, morto em 180c., bispo de Sardes, cidade da
Anatólia ocidental. Esta tradição alcança o século XIII
mediada por Gregório de Tours e pela Legenda aurea de
Jacopo de Varazze, escrita por volta de 1280.

Em âmbito iconográfico, o tema não pareceria ser, segundo
Émile Mâle, uma criação da arte francesa do século XII.

Guido di Pietro (1395c.-1455), chamado Fra Angelico, pinta
este grande retábulo provavelmente por iniciativa da família
Gaddi que o destina a um dos altares do convento de S.
Domenico em Fiesole, nos arredores de Florença, convento
cuja construção se concluíra por volta de 1420 e do qual o
pintor viria sucessivamente a assumir a posição de prior.

O fasto da corte celestial em que tem lugar este rito de
coroação – e na qual refulgem o ouro, diversos tons de rosa
e salmão, e um lápis-lazúli de excepcional pureza – é um
documento precioso da vida de corte europeia no século XV.

Tendo por fundo um trono duplo sob um baldaquino gótico de
mármore, decorado com brocados e duas colunetas salomônicas,
uma Virgem de aspecto adolescente, coberta por um véu
transparente e por um pesado manto de seda azul, branco e
dourado, é representada de joelhos, em rigoroso perfil,
diante do Cristo coroado, no momento em que dele (e não do
Deus Pai) recebe a coroa que a sagra Regina coeli.
Uma almofada atrás dela indica que deverá, ato contínuo,
compartilhar com seu filho o trono do Empíreo.

A cena da coroação é celebrada por um grupo de anjos
musicantes que tocam trompetes, alaúdes e viole da braccio.
Ao longo de uma escadaria de 9 degraus, alusiva aos círculos
do Paraíso, dispõe-se a corte celestial, formada por uma
multidão de personagens bíblicas e de santos.

À esquerda, com um lírio na mão, reconhece-se S. Domingos,
copiado por Degas em um desenho* hoje em coleção milanesa.
Do lado oposto em posição simétrica, vê-se S. Pedro Mártir
com o crânio ensanguentado.

Em um plano mais aproximado, reconhece-se S. Tomás de Aquino
ajoelhado e mostrando ao espectador a cena da coroação.
Neste mesmo nível mais próximo do espectador, sete santos e
oito santas contemplam de joelhos e de costas a cena.
Algumas são reconhecíveis por seus atributos, tais como a
Madalena, S. Catarina de Alexandria, entre outros.

Na predella, seis cenas de cada lado de um Cristo
como homo doloris pranteado pela Virgem e por S. João
Evangelista, narram episódios da vida de S. Domingos: o
Sonho de Inocêncio III, a Aparição ao santo de SS. Pedro e
Paulo, a Ressurreição de Napoleone Orsini, a Disputa de S.
Domingos e o milagre do livro, S. Domingos e seus confrades
alimentados pelos anjos e a Morte de S. Domingos.

Foi mais de uma vez notado o arrojo e a precisão da
perspectiva, sobretudo, do piso ladrilhado, e a densidade
plástica dessas figuras, características que acusam o forte
ascendente de Masaccio e de Domenico Veneziano sobre o jovem
Angelico.

A obra ingressa em 1812 no Louvre, que a data de 1830-1832,
mas datações mais avançadas foram propostas para essa obra,
especialmente por John Pope-Hennessy que chega a situá-la
por volta de 1450.

Luiz Marques
25/10/2011

Bibliografia:
1989 – L. Castelfranchi Vegas, L´Angelico e l´Umanesimo.
Milão, Jaca Book, p. 24
s/d – P. Rihouet, Le Couronnement de la Vierge de Fra
Angelico. Étude monographique du retable du Louvre dans le
contexte socio-politico-religieux de Florence au début du
XVème siècle (Mémoire de maîtrise sous la direction de
Madame Anne Prache, Université de Paris-Sorbonne-Paris IV)
2004 – P. Rubin, “Hierarchies of Vision: Fra Angelico´s
´Coronation of the Virgin´ from San Domenico, Fiesole”.
Oxford Art Journal, 27, 2, pp. 139-153.

Artista

ANGELICO, Fra

Data

1430/ 1435c.

Local

Paris, musée du Louvre

Medidas

213 x 211 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

715 - Coroação da Virgem

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *