Cristo adolescente

Registro inventarial: inv. 61565

A estátua provém provavelmente de Civita Latina. Como
estabelecido por Thulin (1929), o grupo é composto por duas
peças separadas: a figura humana é de mármore de Carrara
(marmor lunensis), e a cadeira com pés na forma de
patas de leão, de mármore grego. Faltam a ponta do nariz,
parte do ante-braço e do pé direito, bem como do papiro e do
dedo da mão esquerda, além de perdas menores.

A figura tem cabelos longos e cacheados, endossa uma túnica
com mangas, e calça sandálias (soleae) colocadas
sobre uma meia que deixa livres os artelhos. Malgrado a
aparência andrógena e um pequeno relevo na altura do peito,
que se poderia interpretar como seios, há hoje consenso na
identificação desta figura como a de um Cristo adolescente,
imberbe e representado como docente em sua cátedra
magisterial, em ato de ensinar, numa clara assimilação de
sua imagem com a do rétor ou sábio antigo.

Este Cristo adolescente – puer senex comparável ao
filósofo antigo – interpreta talvez em chave filosófica o
episódio de Jesus criança disputando no Templo. Que ensine
aos sábios ou aos Apóstolos, ele pertence a um tipo
relativamente comum nas catacumbas do século III, mas também
no período sucessivo. Segundo Eusébio de Cesareia, uma
estátua de prata do Cristo foi doada pelo imperador
Constantino à basílica de Latrão.

Foi notada a assimilação do Cristo docente a um dos Sete
Sábios do Mundo antigo, tal como no afresco da Catacumba
Maius e no relicário de Bréscia*. A iconografia do Cristo
docente, cuja mão levantada remete à gestualidade do sofista
mitificado nas “Vidas dos Sofistas” de Filóstrato (século
III), bem corresponde ao estatuto divino do mestre de
sabedoria, evidente em uma passagem do biógrafo de Marco
Aurélio no Scriptores Historiae Augustae, na qual se
vem a saber que o imperador venerava seus mestres como
deuses:

Tantum autem honoris magistris suis detulit ut imagines
eorum aureas in larario haberet ac sepulchra eorum aditu
hostiis floribus semper honoraret.

“Grandes honras ele conferia, além disso, a seus mestres, a
ponto de manter estátuas de ouro deles em seu lararium e de
sempre visitar suas sepulturas e honrá-las com flores e
sacrifícios.”

Na mesma coletânea de biografias imperiais do século IV, a
imagem de Cristo como homem divino ressurge em uma passagem
da biografia de Alexandre Severo (222-235), na qual Élio
Lâmprido considera a vida privada do imperador:

Antequam de bellis eius et expeditionibus et victoriis
loquar, de vita cotidiana et domestica pauca disseram. Usus
vivendi eidem hic fuit: primum, si facultas esset, id est si
non cum uxore cubuisset, matutinis horis in larario suo, in
quo et divos principes sed optimos electos et animas
sanctiores, in quis Apollonium et, quantum scriptor suorum
temporum dicit, Christum, Abraham et Orpheum et huiuscemodi
ceteros habebat ac maiorum effigies, rem divinam faciebat.

“Antes de narrar suas guerras, campanhas e vitórias,
discorrerei sobre alguns poucos aspectos de sua vida
cotidiana e doméstica. Seu estilo de vida era este:
primeiramente, sempre que possível, isto é, quando não
dormira com sua esposa, fazia logo cedo as próprias devoções
no santuário de seus Lares, (lararium), onde mantinha
estátuas dos imperadores divinizados, embora apenas dos mais
dignos, de algumas almas particularmente puras como Apolônio
[de Tiana], e – segundo um escritor daquele tempo – de
Cristo, de Abraão, Orfeu e outros símiles, e, enfim, os
retratos de seus antepassados”.

Embora se ignore a função (decoração eclesiástica,
doméstica, funeral, etc.) e o contexto original desta
estatueta, pode-se verossimilmente imaginar que pudesse
figurar em um altar privado como o acima mencionado.

A datação da escultura é objeto de controvérsia, variando
desde a primeira metade do século III até o final do século
IV.

Luiz Marques
27/10/2011

Bibliografia:
1929 – O. Thulin, “Die Christus-Statuette im Museo Nazionale
Romano”. Mitteilungen des deutschen archäologischen
Instituts, Römische Abteilung, vol. 44, pp. 201-259.
1978 – K. Weitsmann (ed.), Age of Spirituality. Late Antique
and Early Christian Art, Third to Seventh Century. Catálogo
da exposição, New York, The Metropolitan Museum of Art.
Princeton Univ. Press, p. 524.
1998 – A. La Regina, Palazzo Massimo alle Terme. Roma:
Electa, p. 178.

Artista

Arte Romana

Data

250/ 400c.

Local

Roma, Museo Nazionale Romano, Palazzo Massimo alle Terme

Medidas

72 cm

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

ARTE PÁLEO-CRISTÃ

Index Iconografico

700C - Tipologia do Cristo; 700C10 - Cristo docente

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *