Cristo rechaça os Contestadores da Eucaristia

“Registro inventarial: T. 1886

Originariamente na igreja de SS. Próspero e Petrônio, em
Lugo (Romagna), a obra provém da coleção Angelo Rosea, Roma,
e está na Academia Imperial de Belas Artes desde 1862, onde
era atribuída a Luca Giordano. Há traços de
pentimento à esquerda da mesa.

A iconografia do quadro é uma variante da Glorificação da Fé
no milagre da Eucaristia, cujos célebres exemplos são a
“”Disputa do Ss. Sacramento”” e o “”Milagre de Bolsena”” de
Rafael, bem como as séries do “”Triunfo da Eucaristia”” de
Rubens, para o convento das Descalzas Reales de Madri.

O tema reporta-se à controvérsia sobre a transubstanciação,
basilar na estratégia doutrinal do Concílio de Trento (Seção
XIII, can.2), contra proposições consubstancialistas mais ou
menos radicais. O dogma da transubstantiação, apoiado no
Hoc est corpus meum dos Evangelhos de Mateus (26, 26-
29), Marcos (14, 22-25) e Lucas (22,14-21), incorpora-se
aos documentos oficiais da Igreja desde ao menos o Concílio
Lateranense IV (1215).

É evidente a derivação de diversos elementos do ciclo
rubensiano ou de fontes comuns. Na cena representada por
Viani, a figura da Fé que levanta a óstia consagrada é
similar às que comparecem nas tapeçarias de Rubens e os
personagens que fogem às intervenção do Cristo são
ambientados na Antiguidade, de modo talvez simular os
idólatras e os eréticos.

Na presente obra é magnífica a ideia de despedaçamento das
fileiras adversárias, expressa no contraponto entre a perna
que escapa à esquerda e o braço que avança da personagem à
direita, enquanto a figura de Cristo contrasta pela forma
fechada em que se contém. O empaste delicado que absorve e
suaviza a iluminação de seu semblante, e que se irradia
placidamente pelos cabelos e barba, é outro contraste
manifesto com a dureza do modelado de seus adversários.

Graças às pesquisas de Roli, que publicou uma réplica deste
quadro (191 x 121 cm), não somente podemos atribuí-lo com
segurança a Domenico Maria Viani (1668-1711), mas conhecer
sua datação aproximada e destinação original:

un altro capolavoro del Viani, quel ´Miracolo dell´Ostia´
che gli ho riconosciuto in collezione Bertozzi Dagnini a
Bologna, esso pure animato dalle diagonali abilmente
concertate e da notevoli fermenti pittorici. Anche questo un
dipinto da piacere al giovane Tiepolo, se l´avesse
conosciuto, come molto gli piacque, a dire del Lanzi, la
tela di Bergamo. Il dipinto bolognese è identificabile con
quello menzionato dall´Oretti in casa Boschi
.

A datação proposta pelo autor situa a obra justamente no
quinquênio de atividade mais intensa do artista, quando de
seu retorno a Bolonha, ou seja, entre 1700 e 1705. Roli
exuma do Manuscrito B. 105, c.34 de M. Oretti (Bolonha,
Biblioteca Comunale) a descrição do quadro bolonhês,
particularmente importante no presente caso:

una gran Tavola con un miracolo dell´Ostia, e in alto la
Fede, e nel basso molte figure al naturale
;

Além disso, extrai do Manuscrito B. 291, c.2 e B. 129,
c.148, do mesmo erudito bolonhês (1770c.), a informação,
para nós preciosa, de que:

ne esisteva una replica, ora perduta, nella chiesa dei
Ss. Prospero e Petronio a Lugo
.

Trata-se evidentemente da obra hoje conservada no Museu
Nacional de Belas Artes

Luiz Marques
14/11/2011

Bibliografia:
1716 – G.F. Guidalotti, Vita di Domenico Maria Viani, pittor
bo lognese. Bolonha, 1716.
1739 – G.P.Zanotti, Storia dell´Accademia Clementina,
Bolonha, pp. 353-367 (com comentário de A. Ottani Cavina e
R. Roli, in Atti e Mem. Acc. Clem. di Bologna, XII, 1977,
p.121
1769 – L. Crespi, Felsina pittrice, Vite de´ pittori
bolognesi, Tomo III, Roma, pp.165-167
1789-1809 – L. Lanzi, Storia Pittorica dell´Italia, ed. M.
Capucci, Florença, 1968-1974, 3 vol, Vol III, p.119.
1954 – H. Voss, Domenico Maria Viani. Arte Veneta, 8, 1954,
pp. 284-288
1964 – C.D. Miller, Viani, Graziani and Monti. Contributes
to the Bolognese Setecento, Arte Antica e Moderna, 25, pp.
97-100
1977 – R. Roli, Pittura Bolognese, 1650-1800. Dal Cignani ai
Gandolfi, Bolonha, pp. 100-101 e 297, fig. 152-154
1982 – A. Cera, La Pittura Emiliana del ´600, Milão.
1996 – L. Marques (com a colaboração de Z. Paternostro), A
Arte Italiana no Museu Nacional de Belas Artes. Corpus da
Arte Italiana em Coleções Brasileiras, Vol. 2. Rio de
Janeiro: Museu Nacional de Belas Artes, pp. 76-78.”

Artista

VIANI, Domenico Maria

Data

1700/ 1705

Local

Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes

Medidas

289 x 189 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XVIII

Index Iconografico

750 - Alegorias da Eucaristia; 746Teo - As Virtudes
Teologais; 746TeoF - Fé; 606E4 104c - Purificação do Templo

Autor

Luiz Marques

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