Crucificação

“Registro inventarial: inv. N. Mba 196

Esta obra de Agnolo Bronzino (1503-1572), de excepcional unidade tonal, é assim mencionada por Giorgio Vasari (1568) no capítulo das “”Vidas”” intitulado Degl´Accademici del Disegno:

A Bartolomeo Panciatichi (…)  ha fatto in un quadro un Cristo crucifisso, che è condotto con molto studio e fatica; onde ben si conosce che lo ritrasse da un vero corpo  morto confitto in croce, cotanto è in tutte le sue parti di somma perfezzione e bontà.

“”Para Bartolomeo Panciatichi (…) fez um quadro de um Cristo crucificado, pintado com muita diligência e esmero; de onde se percebe que o representou a partir de um morto na cruz, tão suprema é a perfeição e beleza de todas as suas partes””.

A justa percepção de Vasari da espetacular fidelidade anatômica do modelo bem adverte sobre os limites da ideia segundo a qual Bronzino (assim como o “”maneirismo”” em geral) seria indiferente ou mesmo avesso ao “”naturalismo””. A excentricidade da obra em relação à armadura crítica contemporânea explica, como nota Falciani, por que foi ela atribuída por Roberto Longhi e Carlo Del Bravo em 1961 a um pintor do século XVII como Giovanni Battista Stefaneschi.

Embora muito defasada cronologicamente, tal atribuição transmite uma refinada percepção da obra de parte de Del Bravo, que sublinha “”a objetivação severíssima de um pensamento dominante sobre a humanidade de Cristo””.

Na realidade, o equívoco de Longhi e Del Bravo pertence à classe de erros que encerram acertos mais profundos que a verdade factual. Pois a síntese singular que se opera nesta obra entre a objetividade de um corpo, nem heroico, nem esquálido – quase de ilustracão científica avant la lettre – e uma introspecção religiosa tanto mais intensa quanto mais formalmente controlada acaba por aparentar intimamente este Cristo de Bronzino às Crucificações* de Philippe de Champaigne (1602-1674), impregnadas de silêncio jansenista.

A obra é toda construída em contrastes sutís, a partir da contraposição basilar entre organismo e pedra, contraposição realçada pelo zoom decrescente que transfigura o nicho de uma imagem de altar em uma abstrata arquitetura de pietra serena.

Este recuo da arquitetura produz um efeito quase alucinatório de presença do corpo que paira no vácuo, efeito ainda sublinhado pela alternância luminosa decorrente da incidência diagonal da luz. Assim, ao lado esquerdo iluminado do torso corresponde a região de sombra da pedra sobre a qual ele se recorta com tanto maior evidência. E inversamente, a imersão do lado direito do corpo na sombra parece mais profunda por contrastar com a luz que banha a curva direita do nicho.

Falciani é de opinião que este Cristo preceda os célebres retratos dos Uffizi* (inv. 741 e 736) que Bronzino executa para Bartolomeo e Lucrezia Panciatichi entre 1541 e 1545, marcos cronológicos, respectivamente, do ingresso de Bartolomeo na Accademia degli Umidi e de sua eleição ao cargo de Cônsul da Accademia Fiorentina, sucedendo a Benedetto Varchi.

Nascido em Lyon em 1507, Bartolomeo transcorre sua juventude na corte de Francisco I e teria sido, segundo uma hipótese de Alessandro Cecchi, o idealizador da famosa “”Alegoria””* de Bronzino destinada ao rei, hoje na National Gallery de Londres.

Embora frequente Florença após a restauração de 1530, o casal Panciatichi fixa-se na cidade por volta de 1538. Impregnados de ideais reformistas amadurecidos no ambiente de Jacques Lefèvre d´Étaples (1450-1537), os Panciatichi ligam-se em Florença a ambientes de mesma tonalidade espiritual, razão pela qual Bartolomeo será processado (e talvez também Lucrezia) em 1552 pelo tribunal da Inquisição.

Como lembra Falciani, este Cristo crucificado dá claro testemunho do mesmo anseio religioso que motivará, ainda que de maneira tão diferente, o quase contemporâneo Cristo crucificado de Michelangelo para Vittoria Colonna.

Luiz Marques
26/03/2011

Bibliografia:
1961 – C. Del Bravo, “”G.B. Stefaneschi (1582-1659) e le sue traduzioni da testi del ´500 classico””. Paragone, 137, pp. 50-53.
2010 – P. Costamagna, C. Falciani, “”Le Christ en croix d´Agnolo Bronzino peint pour Bartolomeo Panciatichi””. Revue de l´art, 168, 2, pp. 45-52.
2010 – C. Falciani, in C. Falciani, A. Natali, Bronzino. Pittore e Poeta alla Corte degli Medici. Catálogo da exposição. Florença: Mandragora, p. 170.”

Artista

Bronzino, Agnolo di Cosimo di Mariano, chamado Il

Data

1540c.

Local

Nice, Musée des Beaux-Arts

Medidas

145 x 115 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

610 - Crucificação e Imagens do Gólgota

Autor

Luiz Marques

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