Dança da Música do Tempo (Danse de la Musique du Temps), desenho preparatório

(continuação do texto de comentário à pintura)

veja: http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3620

Das quatro figuras, a única cujo significado parece incerto
é a que Bellori designa por Lusso. Friedlaender a
remete ao Hypnerotomachia Polyphili (1499) de
Francesco Colonna. Ingamells traduz o termo por
Pleasure e Rosenberg e Prat, estranhamente, por
Luxure. Assim, para os estudiosos franceses, a
sucessão das quatro figuras, que eles interpretam como
Pobreza, Indústria, Riqueza e Luxúria, “reflete a trama do
destino humano – a Indústria transforma a Pobreza em
Riqueza, mas a Luxúria traz de volta esta última à Pobreza”.

A interpretação de Rosenberg e Prat retoma em substância a
de outros estudiosos, mas o termo Lusso, empregado
pelo italiano muito culto e latinizado de Bellori, deve,
mais provavelmente, ser associado ao latim luxus, que
possui, como em português, o sentido de fasto, excesso,
ignávia, indolência, moleza, termos sem sentido ou conotação
preponderantemente erótica, tal como luxure, idêntico
a luxúria.

No desenho preparatório do Museu de Edimburgo, a presença de
um pavão ornando a cabeça dessa figura é interpretada por
Ingamells como possível signo de Superbia ou de
Prodigality. Neste último caso, ela bem se inseriria
no espectro semântico de luxus, com seus atributos de
vaidade e ostentação.

No contexto do quadro de Poussin, poder-se-ia, em suma,
atribuir a esta figura o significado negativo de ausência de
mediocritas, de justa medida, este lema délfico do
“nada em excesso” que Cícero considera, na trilha de
Aristóteles, como o próprio de toda virtude (Brutus, 149:
omnis virtus est mediocritas). Com relação às suas
três companheiras, ela seria o elemento que imprime uma
dinâmica ao círculo, levando a “Riqueza”, conquistada
através da “Labuta”, de volta à “Pobreza”.

Os atributos das quatro figuras podem provir, ainda que de
modo inexato como adverte Ingamells, do Iconologia
(1593) de Cesare Ripa, cuja primeira edição, ilustrada com
150 xilogravuras pelo Cavalier d´Arpino, é de 1603 (outras
edições acrescidas de mais ilustrações datam de 1611 e de
1613).

Assim, por exemplo, a “Labuta” (Fatica) proviria da
figura da Fatica estiva, enquanto a coroa de folhas
secas da “Pobreza” teria por referência o leito de ramos
secos da Povertà dei Doni de Ripa. É sobre tais
correspondências, decerto apenas genéricas e aproximativas,
que Ingamells sugere a tradução de Lusso por
Pleasure, que em Ripa traz uma coroa de rosas.

A passagem do desenho à pintura fornece um consumado exemplo
da relação entre esboço e obra terminada em Poussin. Para
além das mudanças pontuais na composição (supressão da
palmeira, deslocamento do menino que brinca com bolhas de
sabão para o outro lado da cena, etc.), é a inteira
estrutura dos planos que se metamorfoseia, distendendo-se e
acomodando-se em uma tópica mais serena, em virtude de um
grandioso dilatamento do espaço e da luz.

É possível, como cogita Ingamells, que os modelos de Poussin
sejam o “Párnaso” de Mantegna (Louvre) e o célebre relevo
romano conhecido pelo nome de “Dançarinas Borghese”
(Louvre), que Poussin admirava, pois é por seu conselho
(segundo Haskell e Penny) que Luís XIII manda executar em
1641 uma cópia dele em bronze. Gombrich (1950) sugere que
outro modelo possível seja o medalhão de Haedus que
Giulio Romano pinta na sala dei venti do Palazzo del
Tè em Mântua.

A obra foi gravada pela primeira vez em 1667-1669 por J.
Dughet e E. Baudet . Ela inspirou a “Dança das Estações” de
Claude Lorrain, de 1662, outro tema talvez ditado ao pintor
por Giulio Rospigliosi.

Luiz Marques
20/01/2012

Bibliografia:
1672 – G. P. Bellori, Le Vite de´ Pittori, Scultori e
Architetti Moderni. Ed. aos cuidados de E. Borea, Introd. de
G. Previtali, Turin: Einaudi, 1976, p. 463.
1936 – E. Panofsky, “Et in Arcadia ego. In, Philosophy and
History. Essays presented to Ernst Cassirer. Oxford, pp.
231-254.
1950 – E.H. Gombrich, “The Sala dei Venti in the Palazzo del
Tè”. Journal of the Warburg and the Courtauld Institutes,
XIII, p. 190.
1962 – D. Mahon, “Poussiniana”. Gazette des Beaux-Arts, II,
pp. 105-106.
1976 – A. Blunt, “Poussin´s Dance to the Music of Time
revealed”. The Burlington Magazine, CXVIII, pp. 844-848.
1981 – F. Haskell, N. Penny, Taste and the Antique. The Lure
of Classical Sculpture 1500-1900. Yale Univ. Press, p. 195.
1982 – L. Osbat, R. Meloncelli, “Clemente IX”. Dizionario
Biografico degli Italiani, ad vocem.
1989 – J. Ingamells, The Wallace Collection. Catalogue of
Pictures, 4 volumes, Vol. III – French before 1815, pp. 307-
313.
1994 – P. Rosenberg, L.A. Prat, Nicolas Poussin 1594-1665.
Catálogo da exposição. Paris, Grand Palais, p. 278.
1995 – R. Beresford, A Dance to the Music of Time. Londres:
The Trustees of the Wallace Collection, 1995.

Artista

POUSSIN, Nicolas

Data

1637/ 1638

Local

Edimburgo, National Gallery of Scotland

Medidas

148 x 198 mm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

10Cron - Cronos Saturno; 12Apo - Apolo, Febo, Hélio, Sol;
12JupxTem1 - As Horas; 14janu - Janus; 16 - O Céu, As
Constelações, Os Planetas, O Zodíaco; 146 - Dança e
dançarinos; 1100Bre - Brevidade da Vida; 1104 -
Representações do Tempo

Autor

Luiz Marques

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