Davi ou Apolo

“Não mencionada por Ascanio Condivi, em sua “”Vida de
Michelangelo”” (1553), esta escultura o é por Benedetto
Varchi, em sua Orazione funerale de 1564:

un Apollo donato da Michelagnolo proprio a Baccio Valori,
quando egli dopo l´assedio era quasi signore di Firenze

“”um Apolo dado por Michelangelo justamente a Baccio Valori,
quando, após o assédio [de Florença], tornara-se como que o
senhor de Florença””.

Varchi afirma que Michelangelo doou a obra a Baccio Valori,
enquanto Vasari, na “”Vida de Michelangelo””, precisa que ele
a “”começou”” para ele. O verbo começar é problemático, pois
implica que Michelangelo não tivesse trabalhado na obra
antes de 1530, o que é contradito pelo fato de que Rosso
Fiorentino a copiou provavelmente em 1527, em um desenho a
sanguina, 194 x 86 mm, conservado no Pierpont Morgan Library
de New York, inv. 1986.47.

Parece mais provável que Michelangelo tivesse começado a
escultura antes de 1527, talvez em 1525 ou 1526, para um dos
12 nichos da Sacristia Nova de S. Lorenzo e, em seguida,
visto-se na contingência de completá-la para a dar a Valori.
De resto, Charles de Tolnay [1948:96] data a escultura dos
anos da Aurora e do Crepúsculo da Sacristia Nova, isto é dos
anos 1525-1527c..

A identificação da escultura sempre foi incerta. Já em 1553,
um inventário do Palazzo Vecchio identifica de outra maneira
a personagem esculpida, pois a menciona na camera del
Principe di Fiorenza
, i.e., do duque Cosimo I (ao lado
do “”Baco”” de Sansovino e do de Bandinelli), como um David
del Buonarroto imperfetto
, isto é, inacabado, em
confirmação do que afirma Vasari.

A favor desta identificação, argumenta-se, ademais, que o
bloco sob os pés da figura deveria abrigar uma cabeça de
Golias. Assim sendo, a torção da figura indicaria o ato de
segurar a funda de Davi, não a aljava de flechas de Apolo.
Há aqui um dilema. De um lado, um desenho mural da Sacristia
Nova, mesmo que não autógrafo, mantém uma indubitável
relação com a escultura de Michelangelo.

Neste caso, devemos concluir que a escultura representa um
Davi, pois o desenho mostra claramente as bolas de sua
funda. Mas, por outro lado, a acima citada cópia de Rosso
mostra claramente um Apolo, com sua aljava. Neste caso, é
difícil considerar, como o faz, por exemplo, Popp [1922],
que a escultura se destinava à tumba altar dos Magnifici.

Desta dupla evidência conclui-se que:

(a) em 1527, Rosso tinha diante de seus olhos um Apolo, seja
ele o modello ou o mármore final;

(b), sucessivamente, em algum momento entre 1527 e 1531,
Michelangelo transforma esse Apolo em um Davi, talvez para
inseri-lo no programa da Sacristia Nova ou a pedido de
Baccio Valori.

Não se compreende, assim, por que razão Tolnay (loc. cit.)
acredita na hipótese contrária, isto é, a de que, instado a
produzir uma escultura para Valori, Michelangelo apenas
“”transformou este Davi em um Apolo””.

A menção a um Apolo comparece uma última vez em Raffaele
Borghini [1584], para desaparecer por dois séculos e meio. A
obra permanece esquecida no anfiteatro do jardim de Boboli,
até que o pintor e teórico neoclássico, Arcangelo Michele
Migliarini, quando de sua estada em Florença em 1823, atenta
para a obra e consegue que se a recolha aos Uffizi, onde é
então exposta ao lado do Baco do artista, também hoje no
Bargello.

Nada pode ser mais longínquo em expressão e sentimento da
forma que este Davi de 1526-1531 e o célebre colosso que
Michelangelo esculpe em 1504.

Em contraste com a irascibilidade cívica do adolescente de
1504, confiante em sua iminente passagem ao ato, vê-se aqui
a melancolia que se despreende da obra do Bargello. Toesca
[1934] formula o contraste na forma de uma oposição entre
ação e não-ação ao dizer que o segundo Davi representa “”a
renúncia e a consciência da vanidade da ação – mais
opressora no ato mesmo da vitória””.

Quanto à percepção da singularidade formal e estilística da
obra, Adolfo Venturi [1936:X,2,72], percebendo a escultura
como a de um jovem Apolo, escreve um momento antológico da
écfrase moderna:

“”O resultado desta postura em cruzamento de linhas é uma
heróica harmonia, uma expressão de força adoçada pelo
repouso (…) O violento artista compraz-se em modelar
lentas transições de relevo, a onda dos músculos que se
relaxam nas belas formas, o cacho ainda indeterminado que
coroa a fronte sem rugas, sem ira, do jovem deus (…)
Trata-se de um dos melhores exemplos da escultura
michelangiana, pela multiplicidade dos pontos de vista no
tutto tondo, na torsão que leva a buscá-los.

O vivo movimento é também elegante, fluído, movimento de
massas. Não há aí o ´non- finito´ por contraste, mas tudo é
esculpido em ´non-finito´. O corpo é forte, mas a cabeça tem
uma expressão lânguida e abandonada. Mais bela que qualquer
estátua clássica, funda-se ela na exaltação da força e da
beleza física””.

Luiz Marques
09/11/2011

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1526c. / 1531

Local

Florença, Museo Nazionale del Bargello

Medidas

146 cm

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

12Apo - Apolo Febo, Hélio, Sol; 538 - Davi

Autor

Luiz Marques

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