Descida da Cruz (desenho preparatório 2: figura de homem)

“(continuação do comentário ao desenho preparatório 1)

Registro inventarial: inv. 1511

A partir do século XVII, a “”Deposição”” de Daniele da
Volterra não apenas escapa singularmente ao desfavor em que
caem tantas obras do século XVI marcadas pelo estigma de um
renegado michelangelismo, mas é, ao contrário, eleita como
uma referência obrigatória em qualquer antologia das obras-
primas de Roma moderna a uso dos inúmeros visitantes da Urbe
durante seu obrigatório Grand Tour pela Itália.

Nicolas Poussin, por exemplo, a considerava, consoante
Félibien (Vie de Poussin, Entrétiens VIII), como a terceira
mais bela pintura de todos os tempos (após a
“”Transfiguração”” de Rafael e a “”Comunhão de S. Jerônimo”” de
Domenichino). Rubens, Bernini e David, como bem lembra
Vittoria Romani, devotam-lhe uma admiração comparável. Entre
as diversas gravuras da obra, destaca-se a água-forte que
Nicolas Dorigny (1658-1756) executa em 1710, dedicando-a a
Ludovico Antonio de Gondrin, marquês de Antin.

A partir da edição das Vidas de Vasari por Giovan Gaetano
Bottari (1759-1760), a “”Deposição””, sempre mais oculta por
um espesso estrato de sujeira, restaurações e repinturas,
começa a ser percebida como uma transposição em pintura de
invenções e desenhos de Michelangelo. No “”Cicerone”” (1855),
Jacob Burckhardt, por exemplo, é definitivo a respeito:

“”Diante da Deposição de Daniele da Volterra na Trinità dei
Monti, surgirá sempre o pensamento de que as partes melhores
devam-se a Michelangelo, pois todas as outras obras de
Daniele (exceto o Massacre dos Inocentes nos Uffizi) são
muito inferiores. Belo demais para ele é o abandono do corpo
do Cristo aureolado pelas pessoas sobre as escadas;
demasiado bem motivados e distribuídos são os movimentos
destas. Também o grupo da Madona desfalecida é belíssimo,
mas aqui o interesse patológico se substitui ao puro
sentimento trágico””.

O grupo de ao menos cinco desenhos preparatórios de Daniele
da Volterra, conservados no Louvre, bem como a feliz
restauração empreendida em 2004 atestam a plena autoria da
obra. O mais acabado deles (inv. 1528) é um modello
que mostra integralmente a composição.

Veja: http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3606

É por outro lado indubitável que Daniele conforma-se a um
esquema compositivo tipicamente florentino que se consagrara
a partir do Políptico da Annunziata, iniciado por Filippino
Lippi e terminado por Perugino, entre 1503 e 1506, para o altar-maior da igreja florentina dos Servitas da Santissima
Annunziata.

Veja: http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=2362

Este esquema compositivo é retomado e desenvolvido em
seguida por Jacopo Sansovino, de que se conhece um famoso
modello em cera, datável de 1508c. –

veja: http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3049

– sendo possível que a invenção preceda o Políptico da
Annunziata, já que Vasari, na Vida de Sansovino, afirma:

“”Tendo Pietro [Perugino] visto a bela maneira de Sansovino,
conseguiu que lhe fizesse muitos modelos de cera, e entre
outros um Cristo deposto da cruz, com muitas escadas e
figuras, algo de fato belíssimo””.

De qualquer forma, esta composição foi reelaborada numerosas
vezes por diversos artistas e pelo próprio Michelangelo em
dois desenhos conservados no Teylers Museum de Haarlem (inv.
A 25) e no British Museum (inv. 1860-6-16-3) e em um relevo
em gesso (39,5 x 25,5 cm) na Casa Buonarroti (cópia, inv.
196), considerados por Johannes Wilde e por Pina Ragionieiri
como pertencentes a um mesmo projeto – uma pintura ou um
relevo – datável de inícios dos anos 1520 (talvez, segundo
Wilde, uma encomenda para o Cardeal Domenico Grimaldi).

(continua no comentário ao desenho preparatório 3 desta
obra)

Artista

Daniele da Volterra (Daniele Ricciarelli, dito)

Data

1541

Local

Paris, musée du Louvre

Medidas

501 x 437 mm

Técnica

Lápis

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

611 - Descida e Deposição da Cruz

Autor

Luiz Marques

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