Duplo Retrato

“Gênero de marca humanista, muito frequentado na retratística
do Renascimento, o duplo retrato masculino (ao lado dos
retratos de esposos) tem a função de sublinhar um
parentesco, uma relação discipular ou uma amizade,
normalmente baseada em uma afinidade (ou contraste) de
temperamentos no tocante a uma específica esfera da
atividade intelectual ou espiritual.

Este duplo retrato é um dos mais precoces do gênero, que
devia se desenvolver mais amplamente ao longo da primeira
metade do século XVI. Nele, ressalta de modo evidente o
contraste entre as fisionomias: melancólica e pensativa a do
primeiro plano que apoia a cabeça na mão; assertiva e
sutilmente risonha, a do segundo. Impõe-se à imaginação a
ideia de um diálogo, possivelmente um típico “”diálogo”” sobre
o amor, e particularmente, como pensa Ballarin (1983), em
torno da obra capital da cultura vêneta de início do
século, o Gli Asolani de Pietro Bembo, composto em
prosa petrarquiana entre 1497 e 1504 e publicado por Aldo
Manuzio em 1505.

O diálogo de Bembo sobre a natureza do Amor tangencia em
mais de um momento o tema do Eros platônico, de tradição
stilnovistica e petrarquista, simbolizado pelo “”melangolo””,
a laranja silvestre de gosto doce-amargo, exibida de modo
ostensivo pela figura do melancólico. Não é de se excluir a
hipótese de que a escolha do fruto baseie-se igualmente na
assonância: melangolo / melancholicus.

Outrora na coleção Ludovisi em Roma (dispersa em 1660), já
com atribuição a Giorgione (1477c.-1510). Depois, na coleção
Tommaso Ruffo, Ferrara. Sua moderna atribuição ao mestre de
Castelfranco é mérito de Longhi, em 1927. Ela não é aceita
por Torrini e Anderson, que o consideram posterior.

Anderson percebe o duplo retrato como o de um “”jovem
patrício segurando uma laranja de Sevilla com seu servo ao
fundo””. A identificação da segunda personagem com um servo
ou pajem parece inverossímil, dada em especial sua
desenvoltura e sua posição paritária do ponto de vista
expressivo em relação à figura do primeiro plano. Isto
posto, não era então sempre fácil traçar a linha divisória
entre a amizade e a relação de “”servitù””.

Luiz Marques
26/10/2010

Bibliografia
1983 – A. Ballarin, “”Giorgione e la companhia degli Amici:
il ´doppio ritratto´ Ludovisi””. Storia dell´Arte Italiana,
5.
1993 – A. Torrini, Giorgione. Catalogo completo dei dipinti.
Florença
1995 – M. Lucco, Giorgione, Milão, p. 96
1997 – J. Anderson, Giorgione. The Painter of ´Poetic
Brevity´. Paris, New York, p. 340″

Artista

Giorgione

Data

1505/ 1510

Local

Roma, Palazzo Venezia

Medidas

77 x 67,5 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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