Duplo retrato

Registro inventarial: inv. n. FGC 40025

Na Vita di Pontormo (1568), Giorgio Vasari tem já
dificuldade em identificar os dois retratados:

Il Puntormo similmente ritrasse in uno stesso quadro due
suoi amicissimi: l´uno fu il genero di Becuccio Bichieraio,
et un altro, del quale parimente non so il nome
.

“Pontormo do mesmo modo retratou num mesmo quadro dois
amicíssimos seus: o genro de Becuccio Bichieraio e um outro
de quem tampouco recordo o nome”.

Becuccio bicchieraio (artesão de vidros), membro da Arte dei
Medici e Speziali, é o apelido de Jacopo di Mattio ou Maffio
de Gambassi, cujo retrato executado em 1528 ou 1529 por
Andrea del Sarto conserva-se em Edimburgo, National Gallery
of Scotland.

O duplo retrato masculino é um gênero da retratística que
conheceu certo favor no mundo antigo e no Renascimento, no
âmbito da celebração de um parentesco, de uma relação
discipular, da relação de um senhor com seu pagem ou
secretário, ou simplesmente, como é aqui o caso, de uma
amizade.

Na primeira metade do século XVI, o duplo retrato
comemorativo da amizade conhece momentos de celebridade,
graças aos retratos em díptico de Erasmo de Rotterdam* e de
Pierre Gillis* pintados por Quentin Metsys e endereçados ao
amigo comum, Thomas Morus; ou o Autoretrato de Rafael e um
amigo* e/ou discípulo (1518c., Louvre), talvez Polidoro da
Caravaggio; ou ainda os retratos de Jean de Dinteville e
Georges de Selve (Os Embaixadores) de Holbein, já de 1533.

Um pouco menos conhecido, mas não menos fascinante, é o
duplo retrato Ludovisi* pintado por Giorgione entre 1505 e
1510 e conservado no Palazzo Venezia de Roma. O duplo
retrato de Giorgione foi considerado por Anderson como um
retrato de um fidalgo com seu pagem ou servo, o que parece
menos verossímil, muito embora a linha divisória entre a
amizade e a relação de “servitù” não seja sempre fácil de
traçar.

No presente caso, a relação de amizade é explicitada pelo
manuscrito segurado pela personagem da esquerda que o põe em
evidência e dele faz como que o verdadeiro protagonista da
composição. Trata-se de uma passagem do De amicitia
VI, 22 de Cícero, texto de referência para os humanistas ao
tratarem da questão da amizade. A passagem frisa o maior
valor da amizade em relação aos outros bens do mundo:

Denique ceterae res, quae expectuntur, opportunare sunt
singulae rebus fere singulis: diuitiae, ut utare; opes, ut
colare; honores, ut laudare; uoluptates, ut gaudeas;
ualetudo, ut dolore careas, et muneribus fungare corporis;
amicitia res plurimas continet
.

“Enfim, as outras coisas que procuramos são coisas
singulares e trazem uma vantagem singular: as riquezas para
se gastar; as honras, para se louvar; os prazeres, para
fruir; a saúde, para não se ter dor e bem aproveitar do
corpo; mas a amizade contém múltiplos bens”.

Os protagonistas em vestes de “scholars”, sem qualquer
adereço, são tão sóbrios que eram no século XVIII
identificados como Lutero e Calvino. Tal sobriedade parece
demonstrar que sua verdadeira riqueza é a amizade, tema que
motiva seu “diálogo” no momento mesmo em que se fazem
retratar. Seus olhares voltados para o pintor convidam-no (e
ao espectador) a se juntar ao diálogo, o que bem motiva a
passagem de Vasari segundo a qual Pontormo era grandíssimo
amigo dos retratados. De resto, a belíssima caligrafia de
Cancelleria da carta é outro testemunho da avançada formação
literária do artista. Segundo Costamagna, Pontormo pode tê-
los retratado quando, em 1523-1524, tinham se retirado com o
pintor para a Certosa del Galluzzo, nas cercanias de
Florença, para escapar da peste que grassava na cidade.

Como sugere Sisi, o tema ciceroniano da amizade, desaguando
no amor da pátria, podia assumir valores anti-medicianos na
Florença daqueles anos, animada pelos ideais republicanos do
Orti Oricellari, liderados por Maquiavel.

O retrato provém da coleção do conde Paolo Guicciardini
(1880-1955) em Florença, mas se encontrava no século XVIII
nas coleções do marquês Giovan Luca Orazio Pucci. Ele foi
atribuído em 1921 a Pontormo por Carlo Gamba, que nele
reconheceu a obra mencionada por Vasari.

Há um desenho preparatório para a mão segurando a carta, nos
Uffizi (GDS, inv. n. 449Fv.)

Luiz Marques
31/10/2010

Bibliografia:
1967 – H. Keller, “Entstehung und Blütezeit des
Freundeschaftsbildes”. In, D. Fraser, H. Hibbard, M.J.
Levine, Essays in the History of Art presented to Rudolf J.
Wittkower, Londres, pp. 161-173.
1973 – L. Berti, L´opera completa del Pontormo. Milão, p. 97
1994 – P. Costamagna, Pontormo. Catalogue raisonné de
l´oeuvre peint. Paris, p. 166
1997 – C. Sisi (et alia), L´officina della maniera. Catálogo
da exposição. Florença, p. 296

Artista

PONTORMO (Jacopo Carucci, chamado Il)

Data

1519/ 1524c.

Local

Veneza, Fondazione Cini

Medidas

88,2 x 68 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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