Esqueletos no ateliê do artista querendo se esquentar

Registro inventarial: inv. AP 1981.20

Assinado e datado: ENSOR / 89

Ao relatar a compra por seu museu, em 1981, desta obra-prima
de Ensor, Edmond Pillsbury assim descreve seu tema:

The enigmatic scene shows several elaborately costumed
skeletons arriving at an artist´s studio only to find the
heat extinguished and the artist collapsed on the floor
beside his palette. The inscription on the front of the
stove may contain a clue to the meaning of the scene. It
reads: “Pas de feu. En trouverez-vous demain?” It is
conceivable Ensor intended the work to be understood as a
reference to the state of the artist in society, evidently
abandoned by his patrons and languishing in the squalor of
his barren studio

“A enigmática cena mostra vários esqueletos rebuscadamente
fantasiados chegando no ateliê do artista, onde encontram o
aquecedor apagado e o artista morto no chão, ao lado de sua
paleta. A inscrição sobre o aquecedor pode conter uma pista
para o significado da cena. Nela, se lê: ´Pas de feu. En-
trouverez-vous demain?´ (Sem fogo. Vai encontrá-lo amanhã?)
É concebível que Ensor tivesse a intenção de que a obra
fosse entendida como uma referência ao estado do artista na
sociedade, evidentemente abandonado por seus mecenas e
consumido na miséria de seu estéril ateliê”.

Parece possível, contudo, conferir à cena e a este estado de
abandono em que se descreve o artista um sentido ao mesmo
tempo mais geral e mais íntimo. Como em outras obras de
James Ensor (1860-1949), e de diversos artistas em especial
ao longo dos três decênios finais do século XIX, é
recorrente e mesmo central o tema do eclipse da atividade
artística, do sentido desta atividade e, portanto, da morte
artística e mesmo física do artista.

Esta morte nada mais tem em comum tem com o gênero da morte
heroica, em voga entre finais do século XVIII e inícios do
século XIX (cujo mais famoso exemplo é a “Morte de Leonardo
da Vinci nos braços de Francisco I”* de Ingres), sendo antes
expressão de um mal-estar existencial, de uma percepção
sempre mais dubitativa das linhas de força e das tradições
formais de que se nutrem sua imaginação e seus valores, além
de uma consciência aguda da crise de sua identidade
sociológica e institucional.

Ensor se retratará, com efeito, mais de uma vez na forma de
um esqueleto, como em Le Squelette peintre*, de
1896c., no Museu de Antuérpia, ou sendo servido, decapitado,
a seus críticos, como em Les Cuisiniers dangereux*
igualmente de 1896.

O pintor vale-se na presente obra de outro motivo recorrente
na temática da morte do artista: o violino, inequívoca
referência à tradição germânica medieval da dança da morte,
tal como no Selbstbildnis mit fiedelndem Tod*
(Autorretrato com a Morte violinista) de Arnold Böcklin
(1872), na Nationalgalerie de Berlim.

O presente quadro, até 1932 na coleção da Viscondessa de
Landsheere em Bruxelas, será replicado pelo artista em uma
água-forte com realces de aquarela, de 1895 (133 x 97 mm,
cat. Tavernier n. 98). Nesta, explicita-se o título da obra:
Squelettes voulant se chauffer.

Para diversos exemplos da complexa questão da agonia e
morte do artista, recorrente sobretudo em finais do século
XIX, procure no campo “Busca” o código 1111J.

Luiz Marques
07/11/2011

Bibliografia:
1982 – E. Pillsbury, “Recent Painting Acquisitions: The
Kimball Art Museum: Supplement”. The Burlington Magazine,
124, 946, pp. i-viii.
1999 – E. De Wilde, G. Ollinger-Zinque, Ensor. Catálogo da
exposição. Bruxelas, Musées royaux des Beaux-Arts de
Belgique, p. 150

Artista

ENSOR, James

Data

1889

Local

Fort Worth (Texas), Kimbell Art Museum

Medidas

75 x 60 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

1111J - Agonia e morte do artista, a morte como artista;
1111L - O ateliê do artista

Autor

Luiz Marques

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