Estudo do afresco Ascensão de S. João Evangelista de Giotto

Registro inventarial: inv. 706

Embora se enquadrem em uma prática comum no final do século XV e início do século XVI, as diversas cópias que Michelangelo (1475-1564), ainda adolescente, realiza dos afrescos de Giotto constituem testemunho de que o jovem artista o considerava como fonte primordial de sua própria arte

O presente desenho representa duas figuras pertencentes ao afresco de Giotto da Ascensão de S. João Evangelista, da Capela Peruzzi, em Santa Croce, Florença.

Trata-se de uma cópia voltada para a acentuação dos efeitos de potência plástica do afresco, “através do uso de um robusto reticulado”, conforme sublinha Sisi [1985:15]. Pode ter interessado o jovem artista também o procedimento tipicamente giottesco de sugerir movimento através da justaposição de duas figuras em posições progressivas.

Joannides [2003:61] reitera a percepção geral de que se trata de estudo anterior aos estudos dos afrescos de Masaccio. Há outra cópia deste mesmo detalhe do afresco feita por Baccio Bandinelli, no Uffizi (inv.n.560), cf. Tolnay [1943:176-179].

Há evidente paralelo entre esse interesse pela arte do Trezentos toscano e a revalorização do toscano dos anos de Giotto como língua literária, em especial o de Dante, Petrarca e Boccaccio. Os anos da primeira formação de Michelangelo, o decênio 1480-1490, coincidem com a consolidação de um novo prestígio da literatura toscana do Trezentos.

Já no biênio 1476-1477, cumpria-se uma nova etapa no galgar da poesia em toscano aos gêneros elevados, com as Stanze de Poliziano, ao menos parte ponderável do Comento de´ miei sonetti de Lorenzo de´ Medici, bem como a assim chamada Raccolta aragonese, composta em 1480c., de grande importância para a fixação dos grandes modelos literários toscanos.

Convertida em instrumento de “política externa”, a poesia toscana era exportada por Lorenzo de´ Medici, com intuito similar ao da política laurenciana de “exportação” de artistas florentinos às cortes italianas e mesmo européias.

Os desenhos que Michelangelo realiza dos afrescos de Giotto e de Masaccio tem sentido cultural similar à reatualização de Dante por Cristoforo Landino (1424-1498).

A iconografia da ascensão de João não parece anterior ao século XI (afresco em um pilar sob a Escada Santa em Sancta Sanctorum, Roma). No que se refere a Giotto, sua fonte textual é provavelmente a Vida de João Apóstolo da Legenda aurea de Jacopo de Varazze (1280c.).

Luiz Marques
13/01/2011

Bibliografia
1943 – C. de Tolnay, Michelangelo. 5 volumes. Vol. I: The Youth of Michelangelo, Princeton Univ. Press, 1969, pp. 176-179.
2003 – P. Joannides, Inventaire Général des Dessins Italiens, VI: Michel-Ange. Élèves et Copistes. Com a colaboração de V. Goarin e C. Scheck. Paris: RMN, pp. 59-61.

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1488/ 1490

Local

Paris, musée du Louvre

Medidas

318 x 205 mm

Técnica

Pena

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

687 - S. João Evangelista; 687B - Morte e Ascensão de S. João Evangelista

Autor

Luiz Marques

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