Exéquias de Atala

“Aluno de Victor Meirelles e Jean-Léon Gérôme (1824-1904), Augusto Rodrigues Duarte (1848-1888) expôs Exéquias de Atala sete décadas depois da célebre versão de Girodet*, em tela de tamanho semelhante. Ele a apresentou na Exposição Universal de Paris, em 1878, trazendo-a para o Brasil e recebendo largos elogios.

Em composição diversa no arranjo, no colorido e no sentimento, Girodet fez os corpos tocarem-se literalmente entre si, com mais pesar, enquanto Duarte salientou os aspectos contemplativos e certa leveza, colocando cada personagem individualmente às voltas com seus pensamentos.

Diferentemente de Girodet, Duarte buscou conferir fisionomias mais étnicas e uma luminosidade menos nuançada, aproximando-se mais de uma atitude realista. No quadro brasileiro, há também a presença do cão, companheiro do padre Aubry que fora dispensado por Girodet. Equivalente aos humanos, a densidade psicológica do animal é extremamente notável.

O quadro de Duarte corresponde em particular ao seguinte trecho, relatado pelo índio Chactas:

“”[…] Atalá estava deitada sobre huma relva de sensitivas das montanhas: seus pés, sua cabeça, seus hombros, e huma parte de seu seio estavão descubertos: via-se em seus cabellos huma flor de magnolia murcha… aquella mesma, que eu tinha depositado no leito da virgem para tornalla fecunda! Seus labios semelhantes a hum botão de rosa colhido depois de duas auroras parecião languecer, e sorrir-se: nas suas faces de huma brancura deslumbrante vião-se algumas veias azues; seus bellos olhos estavão fechados, seus modestos pés conservavão-se unidos, e suas mãos de alabastro apertavão sobre seu coração hum Crucifixo de ébano; o escapulario de seus votos estava passado pelo seu pescoço. Atalá parecia encantada pelo Anjo da melancolia, e pelo duplicado somno da innocencia, e do tumulo. Eu nunca vi cousa mais celeste, e qualquer que ignorasse ter esta Vestal gozado da luz poderia supolla a estatua da virgindade adormecida””.
[grafia da tradução ao português do século XIX]

Alguns artistas – e Duarte foi um deles – interpretaram a “”parte do seio”” à mostra como motivo para descobrir o busto inteiro de Atala. A maioria deles, contudo, foi obediente ao escritor, já que Chateaubriand insistiu na pureza da indígena.

Talvez, numa tentativa de correção pelo realismo, Duarte concebesse que os verdadeiros selvagens – sobretudo sendo puros – não deveriam se importar com tais miudezas. Seja como for, continuam valendo as observações de Mario Praz sobre o romance, igualmente válidas para as obras de arte:

“”Também Chateaubriand é pleno de nostalgia pelo ´estado natural´ idolatrado pelos enciclopedistas, onde ele imaginava realizável o seu ideal sensual […]. Ele fala com saudade […] ´dos casamentos dos primogênitos dos homens, das uniões inefáveis, agora que a irmã era esposa do irmão, que o amor e a amizade fraternal se confundiam no mesmo coração e que a pureza de um aumentava as delícias do outro´ (Atala). Saudade absurda, pois na relação entre irmão e irmã amantes, se ela o fascinava, ele a sentia através da consciência de uma transgressão: e faltando a possibilidade de transgressão no estado primordial da natureza, essa relação, então, não podia ter sabor diferente de uma relação entre estranhos.

Não satisfeito de fazer de Atala uma quase irmã, ele a pinta também como uma virgem que fez voto de castidade, onde se junta o sabor de incesto ao sabor do sacrilégio. E esse amor mata Atala, ´a Virgem dos últimos amores´: a volúpia é coroada pela morte””.

Alexander Miyoshi
12/02/2011

Bibliografia:
1801 – François-René de Chateaubriand, Atalá ou os amores de dous selvagens no deserto. Bahia: Typog. de Manoel Antonio da Silva Serva, 1810.
1930 – M. Praz, A Carne, a Morte e o Diabo na Literatura Romântica. Campinas: Editora da Unicamp, 1996, p. 114.
1978 – D. Wakefield, “”Chateaubriand´s “”Atala”” as a Source of Inspiration in Nineteenth-Century Art””. In The Burlington Magazine, Vol. 120, No. 898, p. 13.
1983 – Q. Campofiorito, História da Pintura Brasileira no Século XIX. Vol. 4, Rio de Janeiro: Pinakotheke, pp. 23-24.
2000 – Y. Lhullier dos Santos, Imagem do índio. O selvagem americano na visão do homem branco. São Paulo: IBRASA, pp. 23-24.”

Artista

DUARTE, Augusto Rodrigues

Data

1878

Local

Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes

Medidas

190 x 244,5 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Literatura Medieval Moderna e Contemporânea

Período

O SÉCULO XIX NA AMÉRICA HISPÂNICA E NO BRASIL (A PARTIR DE 1822)

Index Iconografico

1000Chat - François-René de Chateaubriand; 1000ChAt - Atala; 1210Ind - O Indígena americano e os indigenismos

Autor

Luiz Marques

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