Hídria com cabeça de Górgona

Registro inventarial: GR 1867. 5-8. 1049 (Vase E 180)

Pertencentes à geração pré-olímpica, as Górgonas são
divindades primordiais, descendentes de Gaia. Segundo
Hesíodo (237), da união entre Pontos (Oceano) e Gaia,
nasceram, entre outros, o “valoroso Forcos e Keto de belas
faces”. Da união destas divindades marinhas, nasceram, além
das Graias:

“as Górgonas que habitam além do ilustre Oceano, na
fronteira da noite, no país das Hespérides sonoras, Esteno,
Euríale e Medusa, de atroz destino. Medusa era mortal,
enquanto suas duas irmãs não deveriam conhecer nem a morte,
nem a velhice. Ela só, em compensação, viu deitar-se a seu
lado o deus de cabelos azuis [Poseidon], na doce praia, em
meio às flores primaveris” (vv. 274-280).

Medusa era a Górgona por excelência. Seus cabelos eram
serpentes. Seus dentes assemelhavam-se às presas de javalis,
suas mãos eram de bronze e suas asas, de ouro. Seus olhos
flamejantes petrificavam quem os fitasse. Em idade
helenística, Medusa foi considerada inicialmente belíssima e
seus cabelos foram transformados por Atena em serpentes,
como punição, seja à soberba de tê-los comparado aos da
deusa, seja ao sacrilégio de se ter unido a Poseidon em um
templo a ela consagrado.

Como lembra Jean-Pierre Vernant, o modelo visual da Górgona
ou de sua máscara, o gorgoneion, “figura já na época
arcaica, no frontão dos templos, em acrotérios e antefixas.
Pode ser encontrado em escudos, epissemos, decorando
utensílios domésticos, ornamentando os ateliês dos artesãos,
fixado em seus fornos, erguido em residências privadas,
inscrito finalmente em moedas. Surgindo no início do século
VII a.C., este modelo assitirá à constituição dos traços
essenciais de seus tipos canônicos por volta do segundo
quartel deste século”.

“A cabeça, ampliada, arredondada, evoca uma face leonina, os
olhos são arregalados, o olhar, fixo e penetrante; a
cabeleira é tratada como juba animal ou guarnecida de
serpentes (…); o crânio pode apresentar chifres, a boca,
aberta num ricto, estira-se a ponto de cortar toda a largura
do rosto, revelando as fileiras de dentes, com caninos de
fera ou presas de javali; a língua, projetada para a frente,
salta fora da boca (…)”.

No caso particular desta hídria de fabricação ateniense,
proveniente ao que se diz de Tarquínia, deve-se salientar a
extrema elegância com que a cabeleira de serpentes é
transfigurada em motivos decorativos quase abstratos, que
rodeiam toda a cabeça.

Outra particularidade, é a coincidência cronológica com um
poema. Entre 490 e 486 a.C. – no decênio justamente em que
se data esta hídria – Píndaro (Píticas, XII) homenageia o
flautista Midas de Agrigento, que “venceu a Grécia na arte
revelada por Pálades, quando um dia compôs o lamento mortal
das violentas Górgonas”. É plausível, portanto, que a
figuração deste vaso recorde o poema comentado pela décima
segunda Pítica, cujo tema é “o vasto lamento sonoro que
brotou das gotas ágeis da Górgona” pela morte de Medusa,
vencida por Perseu, “que extinguiu a vista da raça
prodigiosa de Forcos”.

Luiz Marques
26/12/2011

Bibliografia:
490-486 – Píndaro, Pítica XII, “Para o flautista Midas de
Agrigento”. Tradução e notas de E. Mandruzzato. Milão:
Bompiani, 2010, pp. 335-339.
1985 – J.-P. Vernant, La Mort dans les Yeux – Figures de
l´Autre em Grèce ancienne: Artémis, Gorgô. Tradução
portuguesa, Rio de Janeiro: J. Zahar, 1988.
1997- P. Higgs, in R. Blurton (ed.), The Enduring
Image. Treasures from the British Museum. Catálogo da
exposição, Nova Deli e Mumbai, p. 89.

Artista

Arte ática

Data

-480a.C.

Local

Londres, British Museum

Medidas

41,5 cm

Técnica

Cerâmica

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

ARTE GRECO-ROMANA

Index Iconografico

11 - Descendência de Uranos e Gaia e demais divindades e
monstros pré-olímpicos; 11Forc - Forcos; 11Górg - Górgonas:
Esteno, Euríale e Medusa

Autor

Master

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