Interior de um Rancho

“Esta aquarela de José dos Reis Carvalho refere-se a uma
construção feita com barro preenchendo o entrelaçar de
madeiras e é coberta de palha. É uma das pinturas onde Reis
Carvalho demonstra seu conhecimento das regras do desenho e
da proporção, uma vez que fora professor de desenho na
Escola Imperial da Marinha no Rio de Janeiro. O artista
realizou outras aquarelas com este tipo de edificação como
“”Correio do Ceará”” e “”Aula de Primeiras Letras no Sertão””,
ambas no acervo do Museu D. João VI.

Este tipo de habitação é uma herança típica da cultura
indígena. Mais notável é a descrição feita por J. B. Debret
(1768-1848) no “”Viagem Pitoresca”” para “”Formas de Habitação
de Índios”” quando ressaltou aspectos da cultura dos índios
Puris, Patachos, Mundrucus, Coroados, Guainazes, dentre
outros:

“”Esta cabana [feita de paus entrelaçados],
construída solidamente de um modo racional, tem na sua
estrutura o modelo de todas as pequenas casas feitas para
abrigar os escravos dos cultivadores brasileiros em geral;
para que seja perfeita a semelhança, só falta encher os
muros de barro. Este tipo de cabana é comum aos Puris,
Camacãs, Coroados, etc […].””

O mesmo modelo de habitação foi também apresentado por
Debret em “”Família Pobre em Casa””; além dele, Rugendas
representou essa edificação em “”Preparatión de La Racine de
mandioca”” e em “”Negros Novos””, e Thomas Ender em “”Cascatinha
da Tijuca próxima a casa do Sr. Taunay””.

Esta edificação também fora relatada no Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro, em um artigo intitulado
“”Alguns Esclarecimentos sobre as missões da província do
Amazonas”” onde o autor, em 1856, noticia que nos aldeamentos
com cerca de oitocentos índios de diversas tribos “”Todas as
casas e igrejas d´estas aldeias são de paredes de barro e
cobertas de pallha””.

O interesse pela cultura indígena advinha de uma
orientação já dada por von Martius no seu artigo publicado
na revista do IHGB, em 1843, intitulado “”Como se deve
escrever a história do Brasil””, quando já estava em Munique.
Para Von Martius, caberia ao historiador brasileiro o papel
de imprimir um aspecto equitativo entre o sangue português e
as raças negras e indígenas através do conhecimento de cada
uma delas. Acompanhar o desenvolvimento do povo indígena só
seria possível através de documentos históricos que para ele
emergiam da própria língua Tupi, pois fora a língua de um
grande povo primitivo que decaíra de seu estado florescente
de civilização, mas que ainda era compreendida pelas
diferentes tribos. Assim, era o desejo de Martius num
pequeno trecho do artigo “”[que] o Instituto Histórico
Geographico Brazileiro designasse alguns lingüistas para a
redação de diccionarios e observações grammaticaes sobre
estas línguas, determinando que estes Srs. fossem ter com os
mesmos Índios””.

“”Interior de um rancho”” fora realizado durante os trabalhos
José dos Reis Carvalho para Comissão Científica de
Exploração ao Ceará (1859-1861), concebida no IHGB em
meados de 1856. A descrição visual deste modelo de
edificação atende a um dos propósitos essenciais da
expedição: o de conhecer a cultura indígena no norte do
país.

A obra apresenta uma cor marrom quente e viva que lembra os
tons do solo cearense em dias ensolarados, o artista irradia
a mesma cor nos utensílios nela representados: a rede, a
cuíca, o pote de barro na prateleira, na cela e no banco
para sentar e repousar. Da janela vem um contraste de cor
verde decorrente da luz refletida pela vegetação que envolve
a construção. Lembra ser um local de mata exuberante, pois,
no Ceará, há também regiões serranas cobertas de matas
fechadas as quais proporcionam temperaturas amenas durante o
ano todo.

Claudio Alves
Unicamp/Agosto de 2011

Bibliografia:
C. J. Alves, Ciência e Arte em José dos Reis Carvalho: a
pintura na comissão Científica de exploração ao ceará (1859-
1861). São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, Dissertação de Mestrado, 2006.
J. B. Debret, (1768-1848), Viagem Pitoresca e Histórica ao
Brasil. Tomo I, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia Limitada; São
Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1978. pp. 34 e
105.
C.F.P. Martius, “”Como se deve escrever a História do
Brazil””. Revista Trimensal de História e Geographia, Tomo
VI, Rio de Janeiro, 1844, p. 386.
J. W. Mattos, “”Alguns Esclarecimentos sobre as missões da
província do Amazonas””. Revista do Instituto Historico e
geographico do Brazil. Tomo XIX. no. 21. 1856. p. 127.
J. M. Rugendas, Viagem Pitoresca através do Brasil. Coleção
Reconquista do Brasil. Editora Itatiaia Limitada, Editora da
Universidade de São Paulo, 1989.

Artista

REIS CARVALHO. José dos

Data

1859

Local

Rio de Janeiro, Museu Dom João VI

Medidas

16,0 x 22,8.

Técnica

Aquarela

Suporte

Pintura

Tema

Ciência Ilustração científica e Etnografia

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

1601 - Paisagens com arquiteturas e figuras

Autor

Luiz Marques

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