Juízo Final

Este retábulo de Van der Weyden (1400 – 1464) foi encomendado pelo Chancelier Nicolas Rolin e sua esposa, Guigonne des Salins, para o altar da capela da Grande Sala dos Doentes do Hospice (Asilo ou Hospital) que ele fundara em Beaune, na Borgonha. O tema do Juízo Final convinha a um vestíbulo da morte.

Superpõem-se neste retábulo três registros: o Empíreo, isto é, o último círculo dos Céus, sempre banhado na mais pura luz do fogo, o céu sublunar e a Terra, de cujas entranhas ressurgem os mortos.

O Juízo Final de Rogier van der Weyden constitui um ponto de chegada nesta progressiva transformação da cena do Juízo em um verdadeiro processo judiciário, tendência que tem início no século XIII, talvez em relação com a condenação pela igreja no IV Concílio de Latrão (1215) do judicium Dei. Não por acaso, encontra-se aqui uma das primeiras ocorrências do motivo da contraposição entre a espada da justiça e o lírio da misericórdia. Ademais, a excepcional monumentalidade do Arcanjo Miguel, desproporcional em relação ao texto do Apocalipse de João, espelha igualmente esta concepção, dir-se-ia mais judiciária que escatológica do destino das almas.

O pessimismo desta concepção do Juízo Final como um inapelável Dies irae estampa-se sobretudo na gigantesca balança: a análise dos pentimenti da camada pictórica demonstra que o artista originariamente pintara a balança pendendo à esquerda, i.e., à direita do Cristo, e portanto a favor dos eleitos. A versão definitiva põe em cena a condenação, o que é explicitado pelo instante escolhido da representação, o instante da terrível sentença emanando da boca de Cristo e retirada de Mateus 25,41:

Tunc dicet et his, qui a sinistris erunt: “Discedite a me, maledicti, in ignem aeternum, qui praeparatus est Diabolo et angelis eius.

“Então dirá aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos”.

Na última fileira dos eleitos, ao lado de um papa, um bispo e um monarca, reconhece-se o retrato do Chancelier Nicolas Rolin (1376 – 1462), o mais importante Chancelier do duque da Borgonha e comitente da obra.

Como nota Châtelet, Van der Weyden retoma o esquema compositivo dos portais das fachadas das Catedrais góticas, tratando-o porém com singular senso de clareza e equilíbrio.

Luiz Marques
05/04/2010

Bibliografia

1999 – A. Châtelet, Rogier van der Weyden (Rogier de le Pasture), Paris, Gallimard, p. 7

Artista

VAN DER WEYDEN, Rogier

Data

1445/ 1448

Local

Beaune, Hospice

Medidas

212 x 101 cm. (centro)

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

690 - Juízo Final; 690A - Miguel e o Juízo Final

Autor

Luiz Marques

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