Juízo Final

“Maso di Banco encontrou uma solução de todo particular para a representação do tema do Juízo Final, seja por seu posicionamento dentro da capela, seja por sua singular iconografia.

Com relação à sua localização, ele forma um conjunto com o túmulo de Bettino dei Bardi (ou Andrea, segundo outros historiadores). O túmulo está apoiado no chão e, acima dele, desponta uma estrutura arquitetônica que, adossada à parede, forma uma espécie de dossel para o sepulcro; na superfície mural delimitada pelo túmulo e pelo dossel Maso di Banco afrescou a cena do Juízo.

Quanto à iconografia, percebe-se que o Cristo está com os gestos próprios do juiz, alternando o posicionamento das palmas das mãos, mas não há eleitos ou condenados a quem esses gestos pudessem se dirigir; há somente uma única figura, ajoelhada e com as mãos postas, recortada contra um fundo desértico. Essa imagem poderia aludir ao juízo individual, que ocorre no momento imediato à morte, e que concerne o julgamento da alma do morto. A figura pintada, porém, se liga visualmente ao túmulo – real – que lhe está imediatamente abaixo, de modo que seu corpo dele parece estar saindo. A figura, assim, parece estar ressuscitando e se levantando do túmulo, conforme é visto em outras representações do Juízo final, em que figuras e túmulos são pintados.

A iconografia do juízo individual, ademais, parece ser bastante diversa da que ocorre nesse afresco. O elemento que indica de modo incontestável o fato de se tratar do julgamento de um indivíduo, e não o final, é a presença de um defunto, seja no leito de morte, seja em qualquer outra situação que indique o momento do trespasse. O julgamento propriamente dito poderia ser indicado tanto pela presença do demônio, de um lado, e de santos que intercedem pelo morto, do outro, todos perante o juiz, assim como pela tradicional disputa entre anjos e demônios pela alma do morto. Não raro não há a presença seja do Cristo, seja de Deus Pai.

Segundo alguns historiadores, o afresco de Maso di Banco poderia ser uma resposta ao debate sobre a visão post-mortem de Deus: se esta seria concedida aos justos imediatamente após a morte, ou se ocorreria somente após o Juízo final. A controvérsia, que remontaria aos textos patrísticos, seria resolvida somente com o papa Bento XII que, em 1336 – contemporaneamente portanto à execução do afresco em Santa Croce -, promulga a constituição Benedictus Deus, reconhecendo oficialmente a visio beatifica logo após a morte de cada cristão.

O fato de pintura e constituição papal serem contemporâneas explicaria a confusão iconográfica. Entretanto, desde o início do século XIV a representação do juízo individual já comparece na arte, o que é atestado pela decoração do sarcófago do bispo Antonio d´Orso, morto em 1321, na Igreja de Santa Maria del Fiore, em Florença. Ainda na primeira metade do Trecento, ela estaria, senão consolidada, ao menos largamente desenvolvida. A resolução de Bento XII sobre a visio beatifica, desse modo, não seria a condição sine qua non para o desenvolvimento do tema.

Outros pontos da iconografia reforçam a tese de que a cena, ainda que pouco usual, representa de forma inequívoca o Juízo final. Deve-se recordar, nesse sentido, a presença dos anjos trombeteiros, que aludem a 1Cor 15, 51-52. O texto paulino, com efeito, associa o soar das trombetas angélicas à ressurreição dos corpos no último dia, portanto, no momento do julgamento final.

É preciso considerar, ainda, a paisagem de fundo, que se apresenta como um vale desértico. Essa paisagem pode ser a representação do Vale de Josafá descrito em Jl 4, 12, no qual seria realizado o julgamento “”de todas as nações””.

Seria improvável, desse modo, que o fiel, no século XIV, confundisse o afresco de Maso di Banco com uma representação do juízo individual. Essa é, portanto, uma representação sui generis da ressurreição da carne, fato, de resto, já notado por Richard Offner e por outros autores no século XIX.

Tamara Quírico
09/05/2011

Bibliografia:
2000 – R. Bartalini, “”Et in carne mea videbo Deum meum: Maso di Banco, la cappella dei Confessori e la committenza dei Bardi””. Prospettiva, pp. 98-99.
2009 – T. Quírico, Inferno e Paradiso. Dante, Giotto e as representações do Juízo final na pintura toscana do século XIV (tese de doutorado). Rio de Janeiro: Programa de Pós-graduação em História Social/ UFRJ

Artista

Maso di Banco

Data

1336c.

Local

Florença, S. Croce, Capela Bardi di Vernio

Medidas

desconhecidas

Técnica

Afresco

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

OCIDENTE MEDIEVAL

Index Iconografico

690 - Juízo Final

Autor

Luiz Marques

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