Julio II

O retrato de Júlio II por Rafael fixa o modelo do retrato pontifical nos séculos XVI e XVII, até ao menos o célebre Clemente X de Vélazquez (1650), na Galleria Doria-Pamphilj: tronando em diagonal, com o enquadramento um pouco acima dos joelhos, as mãos suntuosas, tão expressivas quanto o rosto, agarradas aos braços do assento, mas senhoras do espaço, o papa exibe uma autoridade moral, e mesmo uma terribilidade perfeitamente terrena, que seu abatido semblante apenas sublinha.

Sabe-se que Júlio II tinha deixado crescer a barba quando de seu retorno a Roma no inverno de 1511 / 1512, em sinal de luto, após os reveses militares sofridos, prometendo não se barbear enquanto não liberasse a Itália das tropas invasoras.

A cabeça do papa sobrepõe-se ao vértice do ângulo de 90 graus formado pelas duas paredes, conferindo ao jogo figura / fundo maior precisão espacial. O acorde cromático é triádico: entre a barba e as vestes de um branco vaporoso intercala-se o brilhante vermelho cereja do mantello, sobre um fundo verde de grande serenidade. O raio-X mostra que esse fundo suavemente animado substituiu um padrão anterior composto por tiaras e chaves cruzadas douradas. Os pingentes dourados, que captam em anamorfose a luz do espaço são quase uma citação dos tours de force de naturalismo da pintura flamenga, que Rafael viria a desafiar de modo ainda mais manifesto no retrato de Leão X com os cardeais Giulio de´ Medici e Luigi de´ Rossi* (1518-1519) na Galleria degli Uffizi.

Segundo o diário do veneziano Marin Sanudo de 1513, o retrato de Júlio II era exibido em ocasiões especiais, ao lado da assim chamada Virgem de Loretto de Rafael, hoje no Musée Condé de Chantilly (1510c.), em dois pilares da igreja S. Maria del Popolo, a igreja romana dos franciscanos, ordem de origem de Giuliano della Rovere.

Há uma sanguina preparatória (36 x 25 cm) para a cabeça de Júlio II em Chatsworth, coleção duque de Devonshire, e uma magnífica cópia desse retrato, atribuída por vezes a Tiziano, no Palazzo Pitti, em Florença.

O retrato consta do inventário de 1693 da coleção Borghese, em Roma, pois o cardeal Scipione Borghese o havia adquirido em 1608, junto com outros 71 quadros, da coleção do cardeal Sfondrati.

Luiz Marques
31/10/2010

Bibliografia
1966 – P. De Vecchi, L´opera completa di Raffaello, Milão, p. 109
1975 – C. Gould, The Sixteenth Century Italian Schools. National Gallry Catalogues, p. 208
1983 – J.-P. Cuzin, Rapahël. Vie et oeuvre. Fribourg, p. 144

Artista

Rafael

Data

1511/ 1512

Local

Londres, National Gallery

Medidas

108 x 80,7 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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