Laocoonte e seus filhos

Ao centro, Laocoonte, de joelhos e com o braço direito
levantado tenta se desvincilhar de uma serpente. À sua
volta, reunidos em três grupos distintos, seus compatriotas
troianos contemplam a cena. À sua direita, jaz o touro por
ele abatido para o sacrifício a Poseidon, conforme narra a
Eneida (II, 201-202) de Virgílio:

Laocoon, ductus Neptuno sorte sacerdos,
Solemnes taurum ingentem mactabat ad aras
.

“O antiste Laocoonte sacrificava
A Netuno com pompa um touro enorme”.
(tradução de Odorico Mendes)

É evidente na pintura a comparação entre a morte do touro e
a do “antiste” (sacerdote), tal como sublinhada no poema:

Post, ipsum, auxilio subeuntem ac tela ferentem,
Corripiunt, spirisque ligant ingentibus: et jam
Bis medium amplexi, bis collo squamea circum
Terga dati, superant capite et cervicibus altis.
Ille simul manibus tendit divellere nodos.
Perfusus sanie vittas atroque veneno
Clamores simul horrendos ad sidera tollit:
Qualis mugitus, fugit cum saucius aram
Taurus et incertam excussit cervice securim.

“Ao pai, que armado avança, ei-las saltando
Atam-no em largas voltas, e enroscadas
Duas vezes à cintura, ao colo duas,
O enlaçam todo os escamosos dorsos,
E por cima os pescoços lhes sobejam,
De baba e atro veneno untada a faxa.
Ele em trincar os nós com as mãos forceja,
E de horrendo bramido aturde os ares:
Qual muge a rês ferida ao fugir d´ara,
Da cerviz sacudindo o golpe incerto”.
(tradução de Odorico Mendes)

A violência do ataque é frisada pelo tombamento da mesa do
sacrifício, deitando por terra os utensílios rituais. Também
como no poema, é claro na pintura que o ataque das serpentes
aos filhos precede o ataque ao pai (encadeamento temporal
que seria obviamente impossível na escultura). Mas,
diversamente do poema, no qual as três personagens sucumbem
à agressão das serpentes, na pintura é patente que um dos
filhos escapa.

Esta divergência parece suficiente para demonstrar que a
fonte do artista da Casa de Menandro não é Virgílio ou,
pelos menos, não exclusivamente. Ela deve se basear em
representações pictóricas anteriores. A morte de apenas um
dos filhos comparece em uma cratera de figuras vermelhas dos
anos 430-420 a.C., atribuída ao Pintor de Pisticci (Pisticci
Painter), hoje no Antikenmuseum und Sammlung Ludwig de
Basileia. A cena representa Etíope, mulher de Laocoonte, em
vias de agredir com um machado uma estátua de Apolo, aos pés
da qual jaz despedaçado um dos filhos apenas do casal.

Cinquenta anos depois, um fragmento de vaso atribuído ao
Pintor de Ilioupersis, com uma cena do Laocoonte, hoje na
coleção Jatta de Ruvo di Puglia, mostra igualmente apenas o
cadáver de um filho. Ambos os vasos mostram Laocoonte vivo,
conforme a versão do mito proposta pela perdida tragédia
“Laocoonte” de Sófocles, embora nsse texto, ao que parece,
ambos os filhos morrem.

É provável, em suma, que o afresco da Casa de Menandro
reproduza uma composição helenística, talvez uma obra de
Zeuxis, segundo uma conjectura avançada por Georg Lippold,
que a estende também ao grupo do Laocoonte no Vaticano. Se,
do ponto de vista compositivo, a pintura nada tem a ver com
a composição adotada pelos escultores do grupo escultórico
do Vaticano, é possível conceber, contudo, que, do ponto de
vista da fonte textual, também Agesandro, Atanadoro e
Polidoro tenham sugerido que um dos filhos, o da direita,
venha sucessivamente a escapar, já que pareceria estar em
vias de se desvencilhar da serpente que lhe envolve o
tornozelo.

O afresco é parte de um tríptico dedicado à Guerra de Troia,
que decorava o átrio da enorme e luxuosa “Casa de Menandro”
em Pompeia, descoberta em 1930-1931 e situada em um terreno
de quase 2000 metros quadrados. Era uma propriedade de
Quintus Poppaeus, da família Poppaeus, à qual pertencia, com
toda a probabilidade, Poppaea Sabina, a segunda esposa de
Nero. Os outros dois afrescos representavam Cassandra,
tentando convencer os troianos a não acolher o cavalo e, na
outra cena Resistindo ao sequestro de Ulisses.

Luiz Marques
19/03/2012

Bibliografia:
1932 – A. Maiuri, La Casa del Menandro, Roma, p. 40.
1946-1947 – G. Lippold, “Zur Laokoongruppe”. Jahrbuch des
Deutschen Archäologischen Instituts, 61/62, pp. 88-94.
1981 – Cf. N. R. Forsyth, “The Punishment of Dirce and the
Death of Laocoon on Contorniate reverses”. Revue
numismatique, 6, 23, pp. 80-95, especialmente pp. 92-93.
1988 – B. Andreae, Laocoonte e la fondazione di Roma. Trad.
italiana, Milão: Il Saggiatore, 1989.

Artista

Arte Romana

Data

60d.C. circa

Local

Pompeia, Casa de Menandro

Medidas

desconhecidas

Técnica

Afresco

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

ARTE GRECO-ROMANA

Index Iconografico

84 - Eneida; 84laoc - Laocoonte II.199-231

Autor

Luiz Marques

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