Laocoonte e seus filhos (imagem 4)

“(continuação do comentário à imagem 3 do Laocoonte)

Toda Roma virá visitar o grupo que o papa Julio II expõe
inicialmente ao lado de seu próprio leito, conforme atesta a
carta de Giovanni Sabadino degli Arienti a Isabella d´Este,
de 31 de janeiro de 1506, transcrevendo uma carta recebida
de Roma de um servidor do Cardeal Raffaele Riario:

Tutta Roma die noctuque concorre a quella casa che lì
pare il jubileo. La maggior parte dei Cardinali sono iti ad
vedere. Lui le tiene in la sua camera appresso lo lecto ben
guardate
.

“”Toda Roma dia e noite concorre àquela casa, tanto que
parece ser o Jubileu. A maior parte dos Cardeais foram vê-
la. Ele [Júlio II] mantém-na em seu quarto, ao lado de sua
cama, sob boa guarda””.

Também a carta de Filippo Casavecchia (1472-após 1520) a
Francesco Vettori (1474-1539), amigos de Maquiavel, de
janeiro de 1506, narra a admiração suscitada pela
descoberta:

Solo ti aviso come mercholedì, che fumo addì XIIII del
presente, fu trovato in questa città in una vignia de uno
gentile homo Romano, chavando sotto terra circha a braccia
6, una mirabile statua di marmo (…), e tutta Roma
giudicha esse le più mirabile statue che mai sieno trovate
per alchuno tempo. Dicono questi uomini litterati questo
esser Laocoon Troiano sacierdote, il quale ne fa mentione
Prinio al trigieximo sesto chapitulo 1/5, e Virgilio nel
secondo della Eneida.

“”Só te aviso como quarta-feira, dia 14 do presente mês,
encontrou-se nesta cidade em uma vinha de um fidalgo, sob 6
braças de terra, uma admirável estátua de mármore (…), e
toda Roma considera-as as mais admiráveis estátuas jamais
encontradas em todos os tempos. Dizem os letrados que se
trata do Laocoonte troiano sacerdote, mencionado por Plínio
no livro XXXVI e Virgílio no segundo da Eneida””.

Para assegurar um máximo de eficiência artística, simbólica
e política a seu troféu, Júlio II encomenda a Bramante
(conforme carta de Giovanni de´ Cavalcanti a Luigi
Guicciardini de 14 de fevereiro de 1506) um cortile
no Belvedere do Vaticano, onde expor suas mais insignes
esculturas antigas, tal como narra Giorgio Vasari em sua
Vida de Bramante:

Fecevi [Bramante] ancora la testata, che è in Belvedere
allo antiquario delle statue antiche, con l´ordine delle
nicchie; e nel suo tempo vi si messe il Laoconte, statua
antica rarissima, e lo Apollo e la Venere; che poi il resto
delle statue furon poste da Leone X, come il Tevere e ´l
Nilo e la Cleopatra, e da Clemente VII alcune altre, e nel
tempo di Paulo III e di Giulio III fattovi molti acconcimi
d´importanzia con grossa spesa

“”Fez ainda [Bramante] a fachada que está no Belvedere, no
antiquário das estátuas antigas, com a ordem dos nichos; e
no seu tempo aí se colocou o Laocoonte, estátua antiga
raríssima, e o Apolo e a Vênus; pois o resto das estátuas
foram colocadas em seguida por Leão X, como o Tibre e o Nilo
e a Cleópatra, e por Clemente VII algumas outras, e no tempo
de Paulo III e de Júlio III foram ali feitas reformas de
vulto com grande despesa””.

Essa ordem de nichos a que se refere Vasari pode ser vista
num desenho de Maarten van Heemskerck (1532-1535), hoje no
British Museum. Eles foram encomendados pelo papa a Antonio
da Sangallo, o Velho, cujo projeto assumirá a forma de uma
“”capela””, de modo a sugerir o caráter como que sagrado de
tais esculturas. Um dos desenhos desse projeto conserva-se
na Albertina, de Viena e a expressão “”capela”” é empregada
numa carta de Cesare Trivulzio a Pomponio Trivulzio, de 1 de
junho de 1506:

il sommo Pontefice l´ha voluta [il Laocoonte] mettere
nella villetta di Belvedere, e vi ha fatto fare per essa a
posta come una cappella
.

“”o Sumo Pontífice determinou que se o coloque [o Laocoonte]
na villetta e aí mandou fazer especialmente como uma
capela””.

Este caráter por assim dizer “”sagrado”” do Laocoonte e das
demais esculturas do Cortile delle Statue foi
devidamente frisado pelos estudiosos. Arnold Nesselrath
(1992) notou, por exemplo, como as esculturas mitológicas
desse nascente Cortile deixaram rapidamente de
constituir apenas uma enciclopédia modelar da arte antiga,
em sentido pliniano, para assumirem o caráter virgiliano de
marmoreos lares, isto é, de representação de uma Roma
antiga novamente sagrada, restaurada e espelhada no
pontificado juliano.

Os “”lares”” eram as divindades domésticas que Eneias trouxera
de Troia a Roma, garantindo-lhe o glorioso destino e a
expressão marmoreos lares, os lares de mármore,
explicitava-se no poema Laudes Iulii II Pontifex
Maximus
(Vat. lat. 10377, fol 98v.), composto por
Evangelista Maddaleni de´ Capodiferro, chamado Fausto,
discípulo de Pomponio Leto e membro da Accademia Romana,
além de ideólogo dos Pontificados de Júlio II e de Leão X.

(continua no comentário à imagem 5 do Laocoonte)”

Artista

Agesandro, Atanadoro e Polidoro

Data

-40c. / 20 a.C. ou 14 / 37 d.C.

Local

Vaticano, Museo Pio Clementino

Medidas

242 cm de altura

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

ARTE GRECO-ROMANA

Index Iconografico

84 - Eneida; 84laoc - Laocoonte II.199-231

Autor

Luiz Marques

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