Liberação de São Pedro da prisão pelo anjo

Registro inventarial: inv. 966

A obra é assinada e datada de 1624 à esquerda em cima:
HTBrugghen fe [16]24.

Os Atos dos Apóstolos e a tradição apócrifa narram três
encarceramentos de Pedro, em Antióquia, em Jerusalém e no
cárcere Mamertino de Roma. A presente cena (12:3-11:
Petrus in carcere ab angelo liberatus) representa
Pedro sendo liberado de seu cárcere em Jerusalém, onde fora
arremessado por ordem do rei Herodes Agripa I.

Presente já na iconografia românica, como, por exemplo,
sobre um capitel esculpido por Gislebertus (1120-1135) sobre
uma coluna na nave esquerda da igreja de Saint Lazare de
Autun, o tema petriano da liberação pelo anjo ganha grande
relevo no contexto das guerras de Itália (1494-1559), com
suas óbvias alusões ao poder transcendental do papa sobre
seus adversários seculares.

Ele voltará a ser muito apreciado pelo caravaggismo por seu
extraordinário potencial para a representação do drama
noturno-luminoso, do embate físico dos personagens em uma
ação fulmínea e dos efeitos de impacto emocional. Aqui, tudo
é contraste extremo, entre a força irradiante do vermelho e
a passividade das tonalidades de marrom, entre vitalidade
juvenil e decrepitude, entre ação e reação, entre a
exortação do anjo à ação repentina e o terror paralisante do
velho arrancado de seu sono. Todo o contexto narrativo do
texto bíblico – o cárcere, os soldados, os companheiros de
cela – é desprezado pelo pintor, que fecha sua lente no
primeiríssimo plano e no amarramento compacto das duas
figuras, captando o instante em que o anjo sacode o santo
de seu torpor e profere em seu ouvido, à queima-roupa:
“Surge velociter!” (Levanta-te rapidamente!).

Poucos anos depois, em 1631, Rembrandt levará esta descarga
elétrica de pura ação a um ápice oposto, representando Pedro
possivelmente em seu cárcere romano de Mamertino*
(Jerusalém, Israel Museum) em abissal recolhimento
introspectivo.

Hendrick Ter Brugghen (1588-1629) pinta uma segunda versão
do tema da liberação, hoje conservada em Tóquio. Leonard
Slatkes chama a atenção sobre a importância seminal da tela
do Mauritshuis para toda uma série de obras de grande
relevância dos últimos cinco anos da atividade do artista.

Luiz Marques
20/08/2011

Bibliografia:
1927 – R. Longhi, “Ter Brugghem e la parte nostra”. Opere
Complete, vol. II, Florença, Sansoni, 1967, pp. 163

Artista

TER BRUGGHEN, Hendrick

Data

1624

Local

Haia, Mauritshuis

Medidas

105 x 85 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

638 - Pedro; 638.8 - Liberação de São Pedro da prisão pelo
anjo

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *