Martírio de Santa Catarina de Alexandria

“Nascida em Alexandria e convertida ao cristianismo, Catarina foi símbolo da perseguição aos cristãos promovida pelo imperador Maxêncio (Marcus Aurelius Maxentius, c. 278-312). Condenada à morte, seu corpo, preso a rodas cravejadas de lâminas afiadas, estava prestes a ser brutalmente dilacerado à medida que verdugos começavam a girar essas rodas. Foi quando operou-se o milagre. Um anjo vindo dos céus fez despedaçar o instrumento da tortura com tal ímpeto que suas partes atingiram os torturadores, deixando assombrados todos aqueles que assistiam o martírio em praça pública.

Conta Vasari que Giuliano Bugiardini (1475-1554) fora incumbido de realizar para a Capela Rucellai em Santa Maria Novella, Florença, um quadro representando esse martírio. No entanto, doze anos haviam se passado e o pintor não conseguia finalizar a obra, faltando-lhe a invenção necessária para tão copiosa representação. Pressionado então pelo comitente – Palla Rucellai -, Bugiardini teria convidado Michelangelo a opinar sobre a obra. Ter-lhe-ia mostrado as partes já concluídas, isto é, as rodas do martírio destruídas pelo raio celeste e o anjo que se revela por entre as nuvens para libertar Santa Catarina; depois, ter-lhe-ia falado dos extraordinários esforços que tanto o haviam consumido durante a realização desses pormenores. Por fim, teria pedido a Michelangelo que lhe explicasse como poderia ser feito um grupo de soldados – sendo alguns em fuga, outros caídos, feridos e mortos – dispostos no primeiro plano, de um lado a outro do quadro, mas em escorço bastante acentuado, visto que deveriam ocupar um espaço reduzido na pintura. A tal súplica Michelangelo, achando graça e compadecido de Bugiardini, teria esboçado rapidamente, com um pedaço de carvão, o grupo de figuras. Todavia, ainda segundo Vasari, aqueles soldados, embora desenhados com extraordinária excelência por Michelangelo, eram apenas contornos, pelo que Bugiardini teria sido forçado a recorrer ao escultor Niccolò Tribolo, seu grande amigo. Eis a seqüência do relato vasariano:

“”Mas uma vez que, como dito, Michelangelo fizera as figuras apenas contornadas, Bugiardini não as podia empregar, pois nelas não havia nem sombra nem nada. Foi quando Tribolo resolveu ajudá-lo. Fez-lhe alguns modelos em relevo, com argila, os quais realizou de modo excelente, conduzidos com a mesma dignidade e maneira com que Michelangelo fizera o desenho, e com um cinzel dentado cinzelou-os para que tivessem mais aspereza e maior força. Assim feitos, entregou-os a Giuliano. Mas como aquela maneira não agradava à pureza e à fantasia de Bugiardini, tão logo Tribolo partiu, ele, com um pincel, banhando-o sucessivamente em água, alisou tanto [os modelos] que, eliminadas as ranhuras, acabaram por ficar completamente polidos. Assim, onde as luzes deveriam servir para retratar e fazer sombras mais ásperas, sucedeu que se eliminou aquilo que fazia a obra perfeita. Tendo depois Tribolo ouvido isso do próprio Giuliano, riu da simplicidade daquele homem, que finalmente concluiu a obra, e não se tem notícia de que Michelangelo alguma vez a tenha visto””.

A obra está, ainda hoje, exposta na parede esquerda da Capela Rucellai em Santa Maria Novella, Florença.

Alexandre Ragazzi
06/11/2010

Bibliografia
1987 – PAGNOTTA, Laura. Giuliano Bugiardini. Torino, pp. 70-2, 222-3.
1966-1987 – VASARI, Giorgio. Le vite de´ più eccellenti pittori, scultori e architettori nelle redazioni del 1550 e 1568. Testo a cura di Rosanna Bettarini. Commento secolare a cura di Paola Barocchi. 6 v. Firenze, V, pp. 282-3.

Artista

BUIGIARDINI, Giuliano

Data

1535/ 1545

Local

Florença, S. Maria Novella, Capela Rucellai

Medidas

425 x 295 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

806 - Imagens e Ciclos Biográficos de santos

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *