Morte de Adonis, com Vênus, as Três Graças e Cupido

“Registro inventarial: BOO. 0735

A fonte textual é Ovídio, Metamorfoses, X, 300-740. Adonis nasce da relação incestuosa de Mirra com seu pai, Cíntias, rei de Pafos e filho de Pafos, ela mesma filha dos amores de Pigmalião com a estátua que Vênus tornara prodigiosamente em mulher.

Após o incesto urdido por Mirra, apaixonada por seu pai que, involuntariamente, fecunda-a no escuro da noite, Mirra foge à espada de seu pai e é convertida no arbusto que toma seu nome, a mirra. Suas lágrimas, sob forma de resina, dão nascimento a Adonis, parto difícil, auxiliado por Lucina.

Golpeada inadvertidamente por uma das flechas de Cupido, seu filho, Vênus enamora-se de Adonis, que, entrementes, crescera e havia-se transformado num jovem deslumbrante. Desprezando os conselhos de sua amante divina, Adonis parte para a caça de um javali, que o mata, afundando as presas em sua virilha. Vênus chega tarde demais para salvá-lo; debruçando-se então sobre seu corpo ensanguentado e moribundo, a deusa exclama contra os fados (724-728):

Et non tamen omnia uestri / Iuris erunt””, dixit; “”luctus monimenta manebunt / Semper, Adoni, mei; repetitaque mortis imago / Annua plangoris peraget simulamina nostri. / At cruor in florem mutabitur.

“”E entretanto nem todas as coisas estarão sob vossa lei, disse; para sempre subsistirá uma recordação de meu luto, ó meu Adonis; a cena de tua morte, repetida em representações anuais, exibirá nosso pranto. E teu sangue será transformado em flor””.

Vênus metamorfoseia assim em anêmonas o sangue de Adonis, cujo culto, de origem fenícia, era muito difundido em Chipre, de onde se espalha para todo o mundo grego.

Em inícios do século III a.C., Teócrito dedica-lhe o Idílio XV, intitulado As Siracusanas. As mulheres que festejam Adonis, drama em cuja parte central, um hino ecfrástico, descreve a cena do retorno anual de Adonis, trazido pelas Horas ao leito de Afrodite:

“”Ó Mestra, tu que te deleitas no Golgoi, no Idálion / e nas alturas de Éryx, ó Afrodite, tu que brincas no ouro, / ah, que maravilhoso Adonis, saindo do inesgotável Áqueiron, / te trazem após doze meses, as Horas com seus passos de veludo””.

Embora o século XVI tenha preferido as cenas do nascimento de Adonis e de sua idílica separação de Vênus, repetidamente representada por Tiziano, seus pintores, sobretudo venezianos, não desprezaram a cena do pranto de Vênus diante do cadáver do belo caçador, representada pioneiramente por Sebastiano del Piombo (1511-1512) em uma obra-prima nos Uffizi (destruída em 1994), por Rosso Fiorentino, em Fontainebleau, entre muitos outros. Mas é possivelmente apenas no século XVII, que o tema da morte de Adonis conhece seu apogeu.

Rubens oferece uma versão excepcionalmente pungente do pranto de Vênus, que acaricia os cabelos e o rosto de Adonis em um gesto que não é sem lembrar uma Pietà. Além disso, a exemplo de Sebastiano del Piombo, ele inclui as Três Graças e Cupido, emprestando-lhes a função do coro de uma tragédia. O paradoxo da morte na sensualidade atlética do corpo de Adonis é, talvez, a nota mais forte de toda a composição.

Luiz Marques
11/11/2010

2005 – S. Steinberg (et alia), The Israel Museum. Jerusalem, Harry N. Abrams, p. 32

Artista

RUBENS, Pieter Pauwel

Data

1614c.

Local

Jerusalém, Israel Museum

Medidas

212 x 325 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

12Ven - Vênus Afrodite; 12Ven4 - Vênus e Adonis; 12Ven4c - Morte de Adonis

Autor

Luiz Marques

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