Morte de Cícero

Localização inventarial: GK I 15181

Assistente de Lanfranco na decoração da cúpula de S. Andrea
della Valle em Roma (1625-1627), e de Simon Vouet na
decoração da capela do Château de Chilly, em Essone (1631,
destruída), François Perrier (1594-1649) afirma-se em Paris
nos anos 1630, atraindo a atenção do jovem Charles Le Brun,
que se torna seu discípulo.

A presente obra, pintada quando do retorno de Perrier a Roma
em 1635 e citada no inventário Giustiniani de 1638,
pertencia a uma série de quatro sobre-portas (dessus-de-
porte) que ornavam outrora a “quinta stanza grande” ou
“stanza dei filosofi” do palácio do Marquês Vincenzo
Giustiniani (1564-1637), sabidamente um dos mais
magnificentes colecionadores e mecenas do século XVII em
Roma.

Além desta, apenas mais uma desse conjunto de quatro telas
sobreviveu: o “Massacre do Inocentes” de Poussin, hoje no
Musée Condé de Chantilly. As outras duas – “A Morte de
Sêneca” de Sandrart (datada de 1635) e “A Morte de Sócrates”
de autoria de certo Giusto Fiammingo – foram com toda a
probabilidade destruídas em maio de 1945 quando do incêndio
da torre D.C.A. de Friedrichshain, em Berlim.

A presença nesse conjunto de um quadro de tema evangélico,
como o “Massacre dos Inocentes” de Poussin, não deixa de
suscitar perplexidade – caberia aqui, sem dúvida, um
“Suicídio de Catão” – e não se deixou de indagar se o quadro
de Poussin destinava-se de fato a integrar esta série.

O assassinato de Cícero ocorreu em 7 de dezembro de 43 a.C.
Ao pintar o tema, raro na história da pintura, Perrier
conforma-se escrupulosamente, como já observado por Landon
(1812), ao relato de Plutarco, escolhendo o instante preciso
da morte, quando Cícero assoma a cabeça fora da liteira.

Perseguido por Marco Antônio, Cícero refugia-se em Gaeta,
onde possuía uma propriedade estival, batida pela brisa. Mas
seus servos, percebendo que seu fim se aproxima, colocam-no
quase à força em uma liteira para levá-lo à embarcação com a
qual poderia ganhar o mar:

“Entrementes, chegaram os sicários: Erênio, um centurião, e
Popílio, tribuno militar que, tempos atrás, Cícero havia
defendido da acusação de parricídio [talvez Caio Popílio
Lenate, defendido por Cícero, segundo o relato de Sêneca
Controvérsia vii, 2]. Com eles, um pequeno grupo de
soldados. Encontrando as portas trancadas, abateram-nas, mas
Cícero lá não se encontrava e os servos repetiam não
conhecer seu paradeiro. Conta-se, entretanto, que um
jovenzinho de quem Cícero fora mestre nos estudos literários
e científicos, formadores de um homem de condição liberal,
liberto pelo irmão Quinto e de nome Filólogo [ou Filógono,
ver epístola de Cícero ad Quintum I 3,4], revelou ao
tribuno que o orador dirigia-se em uma liteira para o mar,
por um caminho que corria à sombra de um bosque. (…)

Erênio lançou-se velozmente por aquela via. Avistando-o,
Cícero ordenou a seus servos que colocassem a liteira por
terra. Com um gesto habitual, apoiou o queixo sobre a mão
esquerda e fixou o olhar no de seus assassinos. Seus cabelos
estavam sujos e desalinhados, o semblante marcado pelas
preocupações daqueles dias. Quase todos os presentes
preferiram cobrir-se os olhos quando Erênio golpeou-o
mortalmente. Foi morto quando assomava a cabeça fora da
liteira. Tinha 64 anos. Por ordem de Antônio, cortaram-se-
lhe a cabeça e as mãos, porque com estas havia escrito as
Filípicas“.

É interessante notar o detalhe do gesto de Cícero ao se dar
conta da inelutabilidade de sua morte: o ato de apoiar o
queixo sobre a mão esquerda, gesto designativo do estado de
melancolia, uma das mais recorrentes “fórmulas de pathos”
(Pathosformeln), da Antiguidade aos tempos modernos.
Ao afirmar que se tratava de um gesto habitual no orador,
Plutarco apenas reitera o temperamento irresoluto, típico do
melancólico, muitas vezes mencionado em sua biografia de
Cícero.

Luiz Marques
14/10/2011

Bibliografia:
1812 – C. P. Landon, Galerie Giustiniani ou Catalogue figuré
des Tableaux de cette célèbre Galerie, Paris: chez l´Auteur,
p. 69
2005 – D. Mandrella, in P. Rosenberg (org.), Poussin,
Watteau, Chardin, David….Peintures françaises dans les
collections allemandes XVIIe – XVIIIe siècles. Catálogo da
exposição, Paris, Grand Palais, p. 402.

Artista

PERRIER, François

Data

1635circa

Local

Bad Homburg, Schloss

Medidas

176 x 243 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Temas Diversos e Imagens não identificadas

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

358 - Cícero; 358F - Morte de Cícero

Autor

Luiz Marques

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