Natividade de São João Batista

Registro inventarial: T. 2111

A obra foi doada em 1926 por Luiz Fernandes à Escola
Nacional de Belas Artes, cujo acervo migra parcialmente em
seguida para o Museu Nacional de Belas Artes. Ela foi ali
inventariada, de início, como de Domingos Antonio Sequeira.

Nascido em Molfetta, na Apúlia, e ativo em Roma, Nápoles,
Turim e em Madri (1753-1762), Corrado Giaquinto (1703-1765)
é um dos mais encantadores coloristas do barocchetto
italiano e, decerto, como aventou a seu tempo Roberto
Longhi, uma das fontes de inspiração da pintura européia da
segunda metade do século XVIII, inclusive de Goya.

A presente obra representa uma “Natividade de São João
Batista”, composição em geral muito similar às da Natividade
de Maria. De deliciosa leveza de toque e de paleta, o estudo
transplanta a cena bíblica para a intimidade doméstica de
uma residência burguesa ou aristocrática italiana. Entende-
se sem dificuldade, à vista de tão consumada arte da
macchia, porque os bozzetti de Giaquinto foram
sempre mais apreciados pelos colecionistas que suas versões
finais.

Trata-se do esboço para o grande retábulo, hoje conservado
no Museu Nazionale di Taranto, de que se conhecem ainda dois
outros estudos, na Pinacoteca de Montefortino e na coleção
de Domenico Maselli, em Bari.

Deve-se datá-lo do início dos anos 1750, imediatamente antes
da partida de Giaquinto para a Espanha. Como dito, sua
composição se relaciona intimamente com a da “Natividade da
Virgem”, tema a que Giaquinto retorna mais vezes. Compare-
se o presente esboço, por exemplo, com as “Natividade de
Maria”, da Chiesa del Suffragio, em Cesena e da Catedral de
Pisa, de 1753 (Foto Alinari 37082), e sobretudo com os
esboços para ambas as obras (Roma, col. Gonnella, Museu de
Palermo, Uffizi, Christ Church de Oxford, etc.), publicados
em 1934 por G. Castelfranco e em 1958 por M. D´Orsi. De
interesse ainda para uma ulterior análise da obra é a
“Sagrada Família”, em Roma, Galleria Nazionale d´Arte Antica
(Foto Alinari 28684).

Esta “Natividade de São João Batista” de Taranto, bem como
seus bozzetti do Rio de Janeiro, de Montefortino e de
Bari, relacionam-se com o último ciclo pictórico realizado
pelo artista. De volta da Espanha em 1762, Giaquinto,
estabelecido em Nápoles, decora a sacristia de S. Luigi di
Palazzo, a partir de projeto de Luigi Vanvitelli. A igreja
foi demolida no início do Século XIX, mas se sabe que o
contrato, estipulado em 1764, prevê o afrescamento até 1765
da cúpula, onde figurarão uma “Imaculada Conceição”,
símbolos marianos e anjos, além de oito Sibilas.

Nos extremos das tribunas, Giaquinto devia pintar ainda uma
“Natividade de Maria” e uma “Assunção”, além de seis telas
representando episódios do ciclo mariano: dois ovais com a
“Anunciação”, e quatro grandes telas, com os temas do
Matrimônio da Virgem (Pasadena, Norton Simon Museum), da
Visitação (Montreal, Mus,e des Beaux-Arts), da Apresentação
de Jesus ao Templo (Cambridge, Mass., Fogg Art Museum) e do
Repouso na Fuga para o Egito (Detroit, The Institute of
Arts).

Destas quatro grandes telas, conservam-se também os
“bozzetti” da “Visitação” e do “Repouso na Fuga para o
Egito”, na Pinacoteca de Fano e em uma coleção privada. A
reconstituição parcial do ciclo é facultada por um desenho
de L. Vanvitelli (Caserta, Palazzo Reale), documentando,
entre outros, o afresco da “Natividade de Maria”, com que
nossa pequena tela, a julgar pelo desenho de Vanvitelli,
mantém relações de afinidade, mas também de contraste.

Uma de suas obras extremas, este afresco e as telas
supracitadas nada mantêm do toque febril e da liberdade da
mancha deste esboço, e mostra uma conversão final do pintor
a padrões de composição mais próximos do neoclassicismo.

Luiz Marques
14/11/2011

Bibliografia:
1954 – R. Longhi, “Il Goya Romano e la cultura di via
Condotti”. Paragone, 53, pp. 28-39.
1958 – M. D´Orsi, Corrado Giaquinto. Roma
1965 – A. Videtta, Considerazioni su Corrado Giaquinto in
rapporto ai disegni del Museo di S. Martino. Nápoles
1985 – P. Amato (ed.), Corrado Giaquinto (1703-1766). Atti
del II Convegno Internazionale di Studi. Molfetta.
1996 – L. Marques (com a colaboração de Z. Paternostro), A
Arte Italiana no Museu Nacional de Belas Artes. Corpus da
Arte Italiana em Coleções Brasileiras, Vol. 2. Rio de
Janeiro: Museu Nacional de Belas Artes, pp. 81-82.

Artista

GIAQUINTO, Corrado

Data

1750/ 1753

Local

Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes

Medidas

66 x 48 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XVIII

Index Iconografico

602 - São João Batista; 602.4 - Natividade de São João
Batista

Autor

Luiz Marques

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