O Arrebatamento de São Paulo

“Registro inventarial: inv. 7288

Com o olhar e os braços elevados, S. Paulo é conduzido por
três anjos aos céus. Envolvem-no nuvens sombrias nas quais
se entrevem reflexos de luz de sua visão do empíreo. O manto
vermelho é como uma metáfora da labareda de seu êxtase, que
não exclui o ato judicioso de compor previamente uma
natureza-morta ao depor no chão a espada e o livro das
Epístolas, seccionados pela luz.

Um pilar e um nicho ou uma porta formam uma arquitetura
essencial, semi-oculta pelas nuvens, a meio caminho entre a
ruina e a dissolução no inefável. Elevada sobre uma montanha
da qual se avistam uma paisagem lacustre e uma cidade, ela
pode ser interpretada como o vestíbulo de um templo,
terrestre ou celeste.

O tema,inexistente antes do século XVII, torna-se recorrente
na pintura deste século seduzido pela experiência do êxtase
religioso. À assunção de São Paulo aos céus corresponde – à
maneira de um contraposto entre visão e cegueira -, sua
queda ao chão, momento da célebre conversão no caminho de
Damasco. Seu modelo teológico e artístico é, como se sabe, a
“”Visão de Ezequiel”” de Rafael, na Galleria Palatina do
Palazzo Pitti.

No primeiro decênio do século, Domenichino representa em um
pequeno cobre (Louvre) o tema do arrebatamento de S. Paulo e
o próprio Poussin (1594-1665) já o havia abordado em 1643 em
um quadro para Paul Fréart de Chantelou (1609-1694), hoje em
Sarasota, Ringling Museum of Art, concebido justamente como
pendant da “”Visão de Ezequiel”” de Rafael.

Poussin pinta esta segunda versão do tema por encomenda de
Paul Scarron (1610-1660), que lhe dedicara em 1648 um poema,
Le Typhon, na tentativa de grangear sua benevolência,
pois o pintor, como manifesto em uma carta, não simpatizava
com o autor do Le Roman comique, um romance picaresco
no qual a personagem grotesca de Ragotin formava uma espécie
de próprio alter-ego.

O aspecto nada atraente de Scarron, corcunda e disforme,
transparece em um retrato anônimo (Le Mans, Musée de Tessé).
Da paralisia de suas pernas, o próprio poeta se encarrega de
zombar em versos inclementes:

Il n´est plus temps de rimailler,
On m´a dit qu´il faut détaller
Moi, qui suis dans un cul de jatte,
Qui ne remue ni pied ni patte,
Et qui n´ai jamais fait un pas,
Il faut aller jusqu´au trépas
,

(Não é mais tempo de fazer más rimas, / dizem-me que é
preciso cair fora / eu, que não tenho pernas, / que não mexo
nem pé, nem pata, / e quem jamais deu um passo / é preciso
que morra)

Poussin tem inicialmente a intenção de lhe pintar um tema
báquico, mas acaba oferecendo-lhe este tema, baseado na
Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios (II Cor, 12,2-4), na
qual o Apóstolo refere-se a si mesmo na terceira pessoa:

Scio hominem in Christo ante annos quattuordecim – sive
in corpore nescio, sive extra corpus nescio, Deus scit –
raptum eiusmodi usque ad tertium caelum. Et scio huiusmodi
hominem – sive in corpore sive extra corpus nescio, Deus
scit – quoniam raptus est in paradisum et audivit arcana
verba, quae non licet homini loqui. Pro eiusmodi gloriabor;
pro me autem nihil gloriabor nisi in infirmitatibus
meis
.

“”Conheço um homem em Cristo que há quatorze anos foi
arrebatado ao terceiro céu, se em corpo ou fora do corpo,
não sei; Deus o sabe. E sei que esse homem – se em corpo ou
fora do corpo, não sei; Deus o sabe – foi arrebatado até o
paraíso e ouviu palavras arcanas, que não é lícito ao homem
falar. Por ele, glorificar-me-ei; por mim, entretanto, não
me glorificarei senão das minhas fraquezas””.

É esta oposição complementar entre força e fraqueza, entre
autoglorificação e auto-rejeição que melhor explica, talvez,
o paradoxo da relação entre a figura austera e sublime por
excelência de Paulo, raptus in Paradisum e a figura
infernal e decaída de Scarron.

Foi notado por Thuillier como a escolha do tema parece um
“”troco”” dado pela severidade do pintor ao caráter zombeteiro
do poeta. Poder-se-ia mesmo pensar se a evidência que
Poussin dá às seis pernas que pendem coreograficamente em
perfeito balanço desse novelo de torsos não seria uma
maneira sutil, oposta à de Scarron, de zombar de sua
deficiência.

Este “”São Paulo arrebatado ao céu”” foi objeto de uma célebre
conferência de Charles Le Brun, proferida na Académie Royale
em 10 de janeiro de 1671, na qual pintura e teologia tendem
à pura fusão, num extraordinário exemplo do esprit de
finesse
da cultura francesa do século XVII.

Luiz Marques
13/01/2012

Bibliografia:
1974 – J. Thuillier, Tout l´oeuvre peint de Poussin, Paris:
Flammarion, p. 106
1990 – A. Mérot, Nicolas Poussin. Londres : Thames and
Hudson, p. 182
1995 – P. Rosenberg, Nicolas Poussin, 1594-1665. Catálogo da
exposição. Paris, Grand Palais, p. 434.
2004 – E. Delapierre, M. Gilles, H. Portiglia, Rubens contre
Poussin. La querelle du coloris dans la peinture française à
la fin du XVIIe siècle. Catálogo da exposição, Arras,
Épinal, p. 91.”

Artista

POUSSIN, Nicolas

Data

1649/ 1650

Local

Paris, musée du Louvre

Medidas

148 x 96 cm (medidas originais)

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

654 - Paulo; 654.12 - Arrebatamento de São Paulo

Autor

Luiz Marques

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