O “Arrotino” (o Escravo Cita)

Além do “Cupido” vendido a Raffaele Riario, um argumento em defesa da hipótese de que Michelangelo criou outras esculturas “antigas” nestes anos romanos é a hipótese de Alessandro Parronchi, avançada em 1975, segundo a qual o Arrotino é obra do artista.

Durante essa primeira estada romana de cinco anos em Roma (1496-1501), o jovem Michelangelo terá decerto esculpido outras obras no mesmo diapasão de emulação com a escultura antiga que tão bem enganara seus contemporâneos. De resto, esta hipotética escultura de Michelangelo, se for mesmo dele, até hoje engana, pois a tomamos em geral por antiga, cf. Haskell, Penny [1981:154] e Bober, Rubinstein [1986:75].

O Arrotino é um mármore representando um homem agachado, afiando uma faca. A escultura constituía desde 1688 uma das grandes atrações da Tribuna dos Uffizi.

Num artigo sucessivo, Parronchi [1992:6-7] reforça sua atribuição, ao publicar um desenho de um artista do ambiente de Michelangelo (Sebastiano del Piombo?) com a inscrição “Michelangelo”, que pode indicar, não a autoria do desenho, mas a do modelo. Trata-se de um estudo da cabeça da figura vista de sotto in su, portanto diretamente a partir da escultura, exposta sobre uma base elevada, conforme o atesta Aldroandi (“sopra una gran base”). O desenho conserva-se em Londres, British Museum 1895.9.15.812 e não é discutido no catálogo de desenhos de Michelangelo por Wilde [1953].

A proposta de Parronchi é naturalmente de vertiginosa importância. Em geral considerada uma cópia romana de um original pergameno, essa figura de “afiador de faca” (arrotino) representaria um escravo cita que se apresta, sob as ordens de Apolo, a esfolar um Mársias de tipo vermelho, como os do jardim do palácio de via Larga, de Lorenzo de´ Medici, e teria outrora pertencido a um grupo de Apolo e Mársias, conforme a composição reproduzida no desenho de René Charpentier, gravado por Chevallier e conhecido por Cabinet du sieur Girardon (Paris, 1710c.).

Ao identificar no Arrotino da Tribuna dos Uffizi uma obra moderna, Parronchi retoma uma tradição que remonta a Sandrart [1675] e, dubitativamente, a Burckhardt [1855/1963:537] e a Kinkel [1876:58-107], mas também ao parecer de Mansuelli no catálogo das estátuas antigas dos Uffizi [1958:I,84-87], cat. 55, que o considera possivelmente obra moderna.

Parronchi afirma que o palácio de “Messer Nicolò Guisa dove hora stà il Signor Duca di Melfi, di là dal Tevere”, tal como escreve Aldrovandi, que ali viu e descreveu a escultura (Aguzza coltelli) por volta de 1550, é o palácio della Cancelleria, a “chasa nuova” de Raffaele Riario, que Michelangelo frequentou em 1496.

Bober, Rubinstein [1986:75-76] acreditam que este palácio fosse o Spada-Capodiferro, então ocupado pelos Guise franceses, mas Bartalini [1996:135] demonstra que se trata, na realidade, do palácio Chigi, isto é, da Farnesina, sendo o “Ghisa” de Aldrovandi uma corruptela de “Ghisi” que estaria por Chigi.

Esta localização da obra em 1550 em outro palácio que não o de Riario não torna inverossímil a atribuição. Michelangelo não viveu com Raffaele Riario durante o ano em que executou seu Baco, mas na casa de Jacopo Galli, cf. Hirst [1994:32], e tudo leva a crer que o Cardeal não se tenha interessado sobremaneira por Michelagelo, já que deixou escapar de sua coleção duas de suas obras (o Cupido e o Baco).

Pode-se indagar, em reforço da tese de Parronchi, por que Heemskerk reproduz a obra sem cabeça (cf. Hülsen, Egger [1913-1916/1975:I,31], fol 57r.), fato inusual em suas cópias de esculturas antigas, e se este procedimento justamente não replicaria o esquema mental que o leva a reproduzir o Baco sem a mão, de maneira a sugerir um “antigo”.

Outra indagação possível é se as primeiras tentativas, infrutíferas, de aquisição do Arrotino pelos Medici já em 1566 e 1571, não traem algum conhecimento ou suspeita de que a obra fosse de Michelangelo, caso em que tais iniciativas bem se inseririam nas gestões do duque Cosimo I e de Francesco I de enriquecer sua coleção com obras do artista, que levaram à aquisição do Baco por Francesco I também em 1570-1571, e provavelmente do Cupido/Apolo, hoje em New York.

Luiz Marques
04/06/2011

Bibliografia:
1975 – A. Parronchi, Opere giovanili di Michelangelo. Vol. II: Il Paragone con l´antico, pp. 127-155
1992 – A. Parronchi, Opere giovanili di Michelangelo. Vol. IV: Palinodia michelangiolesca, pp. 6-7

Artista

Michelangelo Buonarroti (atribuído a)

Data

1500c.

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

desconhecidas

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

2Apo - Apolo Febo, Hélio, Sol; 12Apo8 - Apolo, Mársias, Olimpo e o escravo cita

Autor

Luiz Marques

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