O banho de Diana

Registro inventarial: inv. n. 45

Diversos estratos de significação superpõem-se na formação do sentido histórico-mitológico desta obra de François Clouet (1510c.-1572), como em um jogo intrincado de alusões, caro ao gosto maneirista pela decifração.

Do ponto de vista mitológico, a cena evoca o episódio da morte de Acteon, originariamente narrado na Teogonia de Hesíodo e que ganha sua versão mais influente durante o século XVI no Livro III das Metamorfoses de Ovídio: criado como caçador pelo centauro Quíron, Acteon surpreendeu Diana (ou Ártemis) e suas ninfas a refrescarem-se numa nascente. Irritada, a deusa transforma o caçador em cervo para que se torne presa de seus próprios cães, enfurecidos pelo mesmo sortilégio.

Sob o relato ovidiano, recorrente na poesia e na pintura dos séculos XVI e XVII, oculta-se uma trama de alusões políticas, provavelmente eivada de conotações satíricas, cujo sentido permanece todavia equívoco, malgrado as pesquisas recentes. Análises sistemáticas da simbólica da obra partiram necessariamente do fato que a composição em questão é conhecida em basicamente quatro versões, cada uma delas com notáveis variantes:

1. a do Masp, anteriormente pertencente à coleção de Maurice Métayer,
2. a do Musée des Beaux-Arts de Rouen,
3. a da coleção de Maurice Sulzbach e
4. a do Museu de Tours.

Das diversas possibilidades de identificar as figuras femininas depende o essencial das interpretações propostas. Para Reinach [1920], trata-se de uma alegoria dos amores de Henrique II e de Diana de Poitiers, enquanto que para Blum [1921] e outros, as personagens aludiriam aos amores de Charles IX e de Marie Touchet.

Uma interpretação mais consistente foi avançada por Grandjean [1992:60], para quem os traços de Diana são os de Maria Stuart, conhecidos pelos próprios crayons que lhe fez Clouet, seu fiel retratista. De resto, quando de sua ascensão ao trono como rainha consorte de Francisco II, Maria Stuart fora saudada como a “nova Diana”.

Segundo esta interpretação, na fisionomia da ninfa sentada devem-se reconhecer os traços de Catarina de’ Medici, que chora a morte acidental de seu esposo Henrique II, cujo apelido de “Cervo Real” justificaria a alusão à morte de Acteon.

Da dor desta ninfa/Catarina de’ Medici parecem se regozijar dois sátiros músicos algo malignos, com seus instrumentos de sopro, a trompa de caça e a turelure, imagens alegóricas dos irmãos de Guise – o duque e o cardeal Charles de Lorraine -, tios maternos de Maria Stuart. A figura do sátiro, representação do mal, conviria a estes dois membros de uma das mais poderosas famílias da aristocracia francesa, líderes da católica Santa Liga e conhecidos por suas funestas intrigas políticas.

A ninfa que passa o flammeum, o manto nupcial romano, para Diana/Maria Stuart seria a duquesa de Guise, enquanto a ninfa à extrema direita apresta-se a vestir em seguida a deusa com a púrpura régia.

Em suma, interpretada em tal chave, esta Diana ao banho com a morte de Acteon decifrar-se-ia em três registros simultâneos, como uma elegia fúnebre à morte de Henrique II, como uma crítica acerba aos de Guise e, enfim, como a celebração do casamento de Maria Stuart com o dauphin Francisco II, em 1558, o qual, verossimilmente, perfila-se ao fundo, empunhando o cetro com as armas de França.

O quadro seria assim posterior a 1559, data da morte de Henrique II e aludiria aos esponsais de Maria Stuart, de 1558. Trinquet [1967:1] associa imaginosamente, ademais, ao tronco oco de carvalho atrás da cena atroz da morte do caçador Acteon/Henrique II, os versos de Ronsard:

Les chesnes creux parleront les oracles,
Plus que jamais on voirra des miracles

(Os carvalhos ocos pronunciarão oráculos, / Mais que nunca serão vistos milagres).

As quatro versões da obra acima aludidas – Masp, Rouen, coleção Suzbach e Tours – foram objetos de diversas hipóteses quanto à sua cronologia relativa. Há consenso quanto ao fato de que as versões Sulzbach e Tours sejam posteriores já que o cavaleiro nelas representado é Henri IV. Para Blum (1921), o quadro do Masp é o primeiro da série, enquanto que para Béguin (1965, p.59) a precedência caberia ao de Rouen.

Luiz Marques
05/04/2011

Bibliografia:
1967 – R. Trinquet, “Le ‘Bain de Diane’ du Musée de Rouen. Nouvel essai d´interprétation”. Gazette des Beaux-Arts, pp. 1-16.
1992 – G. Grandjean (col.), Musée des Beaux-Arts de Rouen. Guide des Collections XVI-XVIIe siècles. Paris: RMN

Artista

CLOUET, François

Data

1559/ 1560 ?

Local

São Paulo, Museu de Arte de São Paulo

Medidas

78 x 110 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

12Dia - Diana, Ártemis, Dictina, Selene, Lua; 12Dia2 - Diana e Acteon

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *