O Casal Arnolfini

“Max J. Friedländer bem resumiu as razões primeiras da
extrema celebridade deste ícone da história da arte ao
enfatizar como seu “”feito radica na habilidade de adaptar a
complexa estrutura colorida a uma única fonte de luz e de
conceber as figuras e o espaço representado como um todo,
mais que no cuidado dos detalhes””.

Trata-se efetivamente de uma das primeiras concepções do
espaço em perspectiva, a qual, porém, não é construída à
maneira florentina, isto é, a partir da convergência
rigorosa das ortogonais, pois não há aqui ponto de fuga, mas
sim a partir de uma unidade luminosa.

O significado da cena e a identidade das personagens deste
duplo retrato de Jan van Eyck (1390c.-1441) permanecem
hipotéticos e convém, antes de mais nada, resumir o que se
sabe de sua proveniência e de suas descrições históricas.

As duas primeiras menções à obra, em 1516 e em 1523,
informam que ela é um presente de Don Diego de Guevara
à Arquiduquesa Margarida de Áustria (1480-1530), personagem
central da geopolítica europeia, uma das artífices da Liga
de Cambrai (1508) e da Paix des Dames (1529), resultante no
Tratado de Cambrai.

Margarida é filha de Maria de Borgonha e do Imperador
Maximiliano I, tia, portanto, de Carlos V, de quem foi
tutora e para quem assegura a Regência dos Países-Baixos.
Após sua morte, a obra passa à sobrinha, Maria de Hungria
(1505-58), irmã de Carlos V e Regente dos Países-Baixos de
1531 a 1556. Os inventários e descrições da obra de 1516 a
1794 assim a descrevem:

17/VII/1516: o primeiro inventário, feito em presença da
Arquiduquesa em Malines, menciona “”uma grande pintura””,
chamada “”Hernoul le Sin (ou le Fin) com sua esposa em um
quarto, dada a Madame por Don Diego, cujas armas estão na
cobertura da dita pintura; feito pelo pintor Johannes””. A
Arquiduquesa ordena que se a feche com um cadeado.

Entre 9/VII/1523 e 17/IV/1524: segundo inventário da mesma
coleção, incluindo esta entrada: “”outra deliciosa pintura,
recoberta por duas portas, sobre a qual estão pintadas um
homem e uma mulher, de pé, dando-se as mãos, feita pela mão
de Johannes, as armas e as insígnias do falecido Don Diego
sobre as mencionadas duas coberturas, o nome do personagem
sendo Arnoult Fin””.

1556: Com a abdicação de Carlos V e o retorno de Maria de
Hungria à Espanha, a obra a segue. O inventário de 1556 diz
que Margarida entende levar a obra consigo e a descreve: “”um
grande painel, com duas portas que o fecham e nele um homem
e uma mulher que se dão as mãos, com um espelho no qual os
ditos homem e mulher são mostrados e sobre as portas as
armas de Don Diego de Guevara; feito por Juanes de Hec, no
ano de 1434″”. A pintura pertence desde 1558 à Coroa de
Espanha. Trata-se da primeira menção ao espelho.

1568: Marcus van Vaernewyck memorializa a obra como “”um
quadro sobre madeira muito pequeno”” no qual está pintado:
“”Een cleen tafereelkin … waeren gheschildert was / een
trauwinghe van eenen man ende vrauwe/die van Fides ghetrauwt
worden””. (Um pequeno painel … onde está pintado um
casamento de um homem e uma mulher, casados por uma Fides).
Trata-se da primeira menção a um casamento.

1599: Um visitante de Leipzig, Jacob Quelviz, assim descreve
a obra: “”uma imagem onde um jovem e uma jovem estão se
dando as mãos como se estivessem se prometendo um futuro
casamento. Há aí muita escrita, entre as quais esta:
Promissas fallito quid enim promittere laedit /
Pollicitis diues quilibet esse potest
. O texto é uma
transcrição deturpada de Ovídio, Ars amatoria I, 443-44:
Promittas facito, quid enim promittere laedit? Pollicitis
diues quilibet esse potest
(Farás promessas; pois que
dano há em prometer? Qualquer um pode ser rico em
promessas). Segundo Angelica Dulberg (1990), citações de
Ovídio eram comuns em retratos dos séculos XV e XVI, pois
combinam os prazeres da vida com sua transitoriedade.

1604: Karel Van Mander retoma a descrição de van Vaernewyck
e personifica a Fides: “”O mesmo Joannes realizou em um
pequeno óleo o duplo retrato de um homem e de uma mulher que
se ofereciam as mãos em sinal de noivado, unidos pela
Fides””.

1700: Inventário do rei Carlos II de Espanha: “”uma pintura
com duas portas que a fecham com sua moldura de madeira
dourada de ouro não queimado, alguns versos de Ovídio sobre
a moldura, pintura na qual há uma mulher alemã grávida
vestida de verde dando sua mão a um jovem e parece que estão
se casando à noite e os versos declaram que estão se
enganando e as portas são de madeira pintadas com padrões
marmóreos, avaliado em 16 dobrões””.

Com as guerras napoleônicas, a obra se extravia. Em 1857,
encontrando-se ela em Londres, Crowe e Cavalcaselle
identificam-na pela primeira vez a partir das referências
inventariais de 1516 e de 1524. Supõem, então, que o
retratado seja Giovanni di Arrigo Arnolfini dado que era, em
1434, o mais importante membro daquela família florentina na
Flandres.

(continua no texto que comenta o detalhe da obra)”

Artista

EYCK, Jan van

Data

1434

Local

Londres, National Gallery

Medidas

82 x 60 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Vida Social e Gênero

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos;
1700C3 - Artistas e Autorretratos; 1102Espo - Os esponsais e
ritos de matrimônio; 606E - Paixão de Jesus Cristo

Autor

Luiz Marques

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