O crítico de arte

Registro inventarial: inv. 4.29.7

Diante de um quadro que caricaturiza uma pintura de Picasso
dos anos 1940, senta-se o crítico de arte, os olhos fechados
em êxtase hedonista, com um cigarro na mão adornada por dois
anéis de pedras rutilantes, a outra mão erguida em um gesto
estereotipado de suspensão professoral.

Em 1933, após um primeiro interregno norte-americano em
1932, George Grosz (1893-1959) migra com a família para os
Estados Unidos, para escapar aos nazistas. Ele viria a se
naturalizar norte-americano em 1938. Em seu novo país, sua
obra permanece, contudo, relativamente desconhecida e será
pouco aceita pela crítica, o que leva o artista a abandonar
progressivamente seu engajamento político e a adequar sua
produção ao gosto e ao mercado de arte americanos.

Não perdoa, entretanto, neste nanquim, a figura do crítico
de arte de New York, pedante e grã-fino, aclamando o recém-
adquirido Picasso como um novo tesouro dos “happy fews”. Em
sua autobiografia, A Little Yes and a Big No,
publicada em inglês em 1946, Grosz recorda-se de seu secreto
amor de juventude pelas “ilustrações naturais”, que
prescindiam “de qualquer presunçoso historiador da arte
condescendendo em abstrações abstrusas para explicar um
enigma que finalmente permanecia insolúvel”.

Tal desprezo visceral pelo crítico parece antecipar o de
outro emigrado do mundo germânico para os Estados Unidos,
crítico não menos severo do filistinismo americano: Otto
Preminger (1905-1986). Dir-se-ia que Preminger parece
inspirar-se neste “crítico de arte” ao propor um retrato
igualmente desabonador de outro “snob”, o pérfido colunista
Waldo Lydecker, interpretado por Clifton Webb (1889-1966) no
filme “Laura” de 1944.

Sabe-se que Preminger, formado por Max Reinhardt e bom
conhecedor do mundo da Broadway, dilatou enormemente o papel
de Waldo Lydecker por considerá-lo a personagem mais
interessante da trama, e lutou com a Fox para obter
para Webb (desafeto do Studio por seu homossexualismo) o
papel de Waldo Lydecker.

Isto posto, é tentador imaginar que sua percepção do
potencial de Clifton Webb para encarnar o dandy e
egocêntrico Waldo tivesse algo a ver com o estado de
espírito que levou Grosz a criar em 1941 seu “tipo” de
crítico de arte moderna de New York.

Luiz Marques
12/11/2011

Bibliografia
1992 – A. Negri, “George Grosz: modelli aulici e triviali
per un´iconografia dell´orrore moderno”. In, Goya Daumier
Grosz. Il trionfo dell´idiozia. Pregiudizi, follie e
banalità dell´esistenza europea. Milão, Mazzotta, pp. 191-
241.

Artista

GROSZ, George

Data

1941c.

Local

New York, The George Grosz Archive

Medidas

592 x 460 mm

Técnica

Nanquim (China)

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

SÉCULO XX

Index Iconografico

1111 - O Mundo e o Mito do Artista; 1111F - O artista e o
crítico

Autor

Luiz Marques

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